domingo, 29 de dezembro de 2013
Tischbein e Goethe
Tischbein desenhou Goethe em Itália. A impressão que ficamos do Goethe em Itália é muito diferente daquela que quando o vemos em Weimar. A sensação é que o calor do Sul molda Goethe para melhor. Na Germânia, Goethe vive ensimesmado nos seus pensamentos. Em Roma, ele parece mais solto e livre: menos racional ou frio, e mais humano.
(Notas 1 - Gregos) : Díscobolo
Autor: Míron
Data: ~ 455 a. C.
Díscóbolo representa a transição do Estilo Severo para o Estilo Clássico. A escultura original era de bronze e pintada com cores realistas.
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
Trotsky - 23 de Março, 1923
A Necessary Discussion with Our Syndicalist Comrades
O camarada Trotsky escreve ao camarada Louzon, contestando a posição deste sobre o sindicalismo. Louzon defende que o sindicato deve ser independente do partido, ou seja, não pode ser um anexo, um membro secundário, do partido revolucionário. Trostky discorda em absoluto: o partido é tudo. O camarada diz que não tem medo da palavra "partido", porque o seu partido é diferente - e melhor - de todos os outros. Uma expressão engraçada é "minoria activa", a franja de vanguarda que vai conduzir a revolução. Termino, com uma palavra que Trostky usou no último parágrafo: purificação.
On Subjection of Women: John Stuart Mill (3)
Modern changes of attitude
Slavery and absolute monarchy
Natural?
Slavery and absolute monarchy
Natural?
A história humana evolui de forma lenta, quando antes se pensava que o autoritarismo era algo natural, ou até, intrinsecamente necessário; com o passar do tempo foi sendo apreendido que o despotismo absoluto era nocivo e prejudicial. É aqui que Mill traça um paralelo entre a opressão sobre as mulheres e um regime autoritário. Há quem considere a sujeição das mulheres como algo natural, mas que, ao mesmo tempo, considera a tirania como humilhante e degradante. Stuart Mill lembra o caso da escravatura, os donos dos escravos consideravam esta como natural, todavia, é díficil concordar que os escravos considerassem a sua condição da mesma forma. É possível criar um paralelo entre a condição feminina e a condição dos escravos, em ambos os casos há uma sujeição e o falso reconhecimento que as coisas "são mesmo assim, e de outra forma não podem ser". Por fim, Mill alerta que não existem evidências para que sejam negados direitos políticos às mulheres, lembrando o caso da Inglaterra ser governada por uma mulher, algo que os ingleses consideram natural, mas que é estranho a outros povos.
terça-feira, 29 de outubro de 2013
On Subjection of Women: John Stuart Mill (2)
Parte 2: Razão versus "Instinto"
Mill, no primeiro ponto do primeiro capítulo, começa por referir que o assunto "a sujeição das mulheres" é sensível e interligado a uma massa de emoções. Porque será que as mulheres devem sujeitar-se aos homens - primeiro os pais, depois os maridos - das suas vidas? Porque será que esta sujeição tornou-se institucional, ou seja, reforçada pela força legal?
Stuart Mill evoca o fim da era da razão de Deus, que é substituída pela razão dos homens, alertando que está última não passa de um mero instinto, quiçá mais perigoso que a hegemonia divina, para advogar a ideia que não existe nenhum fundamento, a não ser a força bruta, que obrigue as sociedades a assumir o formato patriarcal. Este formato impede o melhoramento das sociedades humanas, não é socialmente necessário e faz uso da força para sua preservação. Em suma, não há nenhum argumento lógico que possa sustentar este status quo.
On Subjection of Women: John Stuart Mill (1)
Parte 1
Motivação:
Motivação:
John Stuart Mill é conhecido como autor e filósofo. Uma das suas ideias - aquela que conheço melhor - é o utilitarismo. Este conceito dá mote a uma ética onde as acções morais humanas podem ser "avaliadas" pela felicidade ou bem-estar que produzem. Mas, Stuart Mill, também foi um político, mais concretamente um deputado. Em 1987, neste último papel, lançou uma ideia que visava alterar a lei eleitoral. Nesta constava que só os "homens" podiam votar, Mill propôs que "homem" fosse substituído por "pessoa", para incluir as mulheres no direito ao voto. É daqui que nasce a minha vontade de ler este livro. Está associado a este a primeira vaga do feminismo. Uma fase onde a emancipação das mulheres incidia fundamentalmente nos direitos políticos.
segunda-feira, 28 de outubro de 2013
Frase #1
Tenham lá calma com esses estrogénios!
Liderança ou Crise
As palavras são de Leon Panetta - antigo secretário de Defesa de Obama - e não podiam ser mais assertivas:
- Nós governamos por liderança ou por crise. Quando não há liderança, há crise.
Esta premissa vai ao cerne da questão, teremos nós liderança a mais ou a menos? Estamos em crise, há algum líder que queira pegar neste monstro? Que tipo de liderança precisamos para escapar ao precipício expresso nas sucessivas vagas de austeridade? O meu receio, no âmbito regional ou nacional, é que estamos todos fixados no imediato, sem olhar a fundo nas consequências das políticas contemporâneas no futuro do país ou da região. Precisamos de liderança para esta tomar lugar de uma corrosiva crise. Verdade seja dita: não a temos. E ninguém digno de consideração prefigura-se no lugar para ser esta liderança.
domingo, 27 de outubro de 2013
A Substância da Autonomia
Começo por repetir uma máxima que há muito advogo: o conceito que conhecemos como autonomia, não pode, de forma alguma, obliterar algo muito mais fundamental e crucial: a autonomia individual dos madeirenses. A autonomia regional é um termo de natureza política-administrativa, infelizmente, tomada de assalto por uma linha partidária. O problema desta apadrinhamento partidário é que esvaziou elementos muito relevantes da nossa comunidade insular.
O que nos leva a termos uma autonomia? Será que a nossa autonomia fundamenta-se apenas no facto de sermos um território ilhéu? No que me é possível concluir, a autonomia advém mais de idiossincrasias culturais e sociais, do que uma mera ultra-periferia. Somos todos portugueses, mas há uma miríade de elementos que nos diferenciam do resto do país. Vejamos o nosso rico vocabulário, a nossa relação com o mar, a gastronomia, os arraiais, a arquitectura ou a "diversidade concentrada" provocada pela sinuosa orografia das nossas ilhas. Tudo isto combinado tem como resultado uma singularidade cultural e social, que foi subordinada ao folclore partidário.
Se queremos fazer valer a nossa autonomia temos, primeiro, de nos libertar da relação parasitária que a política criou com a sociedade madeirense. Temos de nos valorizar como indivíduos que pertencem a uma autonomia, sem que isto remeta para estranhas conotações partidárias, ou infindáveis quezílias entre instituições - as que governam a região e as que governam o país. A autonomia deve privilegiar a diversidade e a democracia, não deve ser uma arma de arremesso entre os "verdadeiros autonomistas" e os "traidores da autonomia".
A autonomia deve materializar-se naquilo que verdadeiramente é: uma singularidade social e cultural que quer e pode enriquecer a cultura portuguesa. Devemos dar uma nova substância à nossa autonomia, recriando a sua vitalidade. Nós somos capazes de projectar a nossa autonomia de tantas e variadas formas, deste modo, ficarmos presos a um mero estatuto administrativo acaba por ser perigoso e constrangedor. Defendo, assim, uma renovada autonomia focada naquilo que temos de melhor: a nossa cultura, as nossas tradições e a nossa paixão pela liberdade.
sábado, 19 de outubro de 2013
A lebre, um lobo e um leão
Seja qual for o intelecto ou engenho de uma lebre, para o leão ou para o lobo, a lebre será sempre uma lebre.
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
sexta-feira, 11 de outubro de 2013
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
Pirâmide Invertida
Nós pensamos na corrupção, na inépcia e na incompetência política. Nós observamos uma casta que usurpa e decide com amor ao bolso. Nós concluímos que o bem-comum é uma falácia eleitoral. Nas andanças políticas, vejo um mal maior e mais nocivo: o ego. O mundo não roda em volta do dinheiro, o dinheiro é um meio para os fins da vaidade, do orgulho e da mitomania. A grandeza corrompe a alma um pouco como o ácido dissolve o bronze da moeda, lentamente o metal vai dando lugar ao volátil.
Eu não quero fazer uma apologia do poder. O poder cansa se não exercer fascínio. Alexandre, o Grande, admirava Diógenes de Sinope porque perguntou ao critico das luxurias da civilização o que podia fazer por ele. Diógenes respondeu mais ou menos assim: afasta-te que a tua sombra está a privar-me do sol. O macedónio ficou impressionado com esta desafectação ao poder, eu reitero o mesmo respeito e louvor. Repito as palavras do mentor do termo cínico: não me tires o que não me podes dar. Diógenes de Sinope, revela uma ética individual e um desprezo por convenções que eu facilmente tomo como minhas virtudes - com a ressalva que aquilo que ambiciono ser é muito diferente daquilo que realmente sou.
Apesar do pudor que devemos ter em relação ao poder, será que devemos considerar que este tem utilidade? No meio intempestivo da política, e sabendo que esta tem uma gravidade infinita para atrair arrivistas e figuras suspeitas, não será o poder um mecanismo de controlo deveras proveitoso? Ou seja, num mundo ideal, o poder é abjecto. Mas como o mundo não é perfeito, e as imperfeições são sempre redundantes e, de forma absurda, mais que abundantes, não será o poder uma virtude a ter em conta? Não será um bem raro que devemos privilegiar como necessário?
No contexto actual, vejo no cenário político que me está mais próximo, este dilema de forma flagrante. Vemos o fim de um poder, mas vivenciamos uma luta fratricida pela sua perservação ou substituição, e neste hiato, em que um rei vai ao fosso e ainda não temos outro a ocupar o trono, sentimos a tenebrosa realidade de selvajaria e decadência. O aroma é de um cruel vazio que infesta todos os cantos da vida pública. Fica a ideia que queremos uma ordem renovada, mais do que tudo o resto. Como se, para termos um mundo novo, tivéssemos de recolher os cacos para restabelecer a pirâmide conceptual que estrutura a nossa sociedade. Kafka, escreveu sobre isto, sei que é assustador, as nossas ideias sobre liberdade e democracia podem assentar numa ilusão, ou melhor, pode ser uma fantasia que as nossas liberdades e direitos não assentam na força bruta.
Isto de pensar...
Dá muito jeito para contemplações filosóficas, mas não é muito útil sábado à noite...
segunda-feira, 7 de outubro de 2013
Os caminhos dos dúbios
O caos é um bom refúgio dos dúbios. No meio do caos há mil desculpas para o desvanecimento da linha recta. Há quem não deseje linhas rectas, é um receio natural. No término da linha está o fim. O que será que virá depois do fim?
(Pior que o caos, é o desejo de regressar a este.)
sábado, 5 de outubro de 2013
Miudezas, bagatelas e bugigangas
Arranjistas, chalantes, espirras-canivetes, furas-vidas, arrivistas, farragulhas, masmarros, fradescos, argueireiros, almocreves de missangas, filhos de uma égua, badamecos, biltres, farsantes, mangas-de-alpaca, pés-de-sala, salafrários, triques-lariques, unhas de fome, sacripantas, pelintras, meliantes, nababos, energúmenos, analfabrutos, bocas de xarrocos, chupados das carochas, escarumbas, e se fizessem todos o obséquio de ir levar no trombone!
A razão é um bisturi
- Gostava de perceber porque as coisas não fazem sentido.
- Eu sei que há coisas que não fazem sentido, mas há coisas que não são para ter lógica.
- Mas isso leva à insanidade, as nossas vidas estão pejadas de caos e selva.
- Muito bem, mas um mundo ordenado é previsível.
- Isso é mau?
- Pode ser. Se não podemos ser surpreendidos com coisas boas, fica tudo muito insípido.
- Deveríamos ser todos mais racionais.
- Isso não é razoável, a razão não é razoável com nada. É um bisturi, nada mais.
- Eu sei que há coisas que não fazem sentido, mas há coisas que não são para ter lógica.
- Mas isso leva à insanidade, as nossas vidas estão pejadas de caos e selva.
- Muito bem, mas um mundo ordenado é previsível.
- Isso é mau?
- Pode ser. Se não podemos ser surpreendidos com coisas boas, fica tudo muito insípido.
- Deveríamos ser todos mais racionais.
- Isso não é razoável, a razão não é razoável com nada. É um bisturi, nada mais.
Uma artificialidade natural
Nós vivemos as nossas vidas em compartimentos sociais: a empresa, o partido, o clube...uma lista infindável de organizações com as suas próprias regras, por vezes, completamente antagónicas com o nosso estado de natureza. Somos forçados a competir com estranhos e rivais obtusos, pessoas que não temos qualquer tipo de ligação, sem a menor hipótese de um entendimento baseado num compromisso ou reconhecimento mútuo. Isto leva ao confronto com a estranheza e o absurdo, somos agentes num jogo onde as regras são inter-subjectivas. Ou seja, nem dependem de critérios objectivos, nem dependem das nossas preferências ou inclinações pessoais - subjectivas.
Isto origina elementos estranhos, que vão desde adversários inverosímeis ao diluir de amizades reais. Enfrentar esta amalgama é um pouco como lidar com o vento ou a força das ondas do mar, ou criamos turbinas eólicas onde rotativas criam energia para nosso proveito, ou somos levados pela força da intempérie. No caso do mar, ou as ondas produzem erosão, ou uma prancha conduz-nos ao prazer inebriante de surfar. Ainda no outro dia, disseram-me que não podemos fazer opções sem o reverso da medalha. A ideia é interessante, todavia qual será o beneficio disto tudo se por detrás de um reverso da medalha, está outro reverso pior ou igual?
A muralha da sina
A muralha da China foi construída para impedir as invasões dos mongóis e dos bárbaros, mas a sua função como meio de defesa é duvidosa. As muralhas são sempre ambíguas para vencer um blitzkrieg, ou para derrotar uma werhmacht, vejamos a linha maginot como um exemplo desta explícita possibilidade de fracasso. Não podemos vencer os bárbaros na passividade, abdicar da coragem é a sina da derrota. E as muralhas podem ser perigosas noutro sentido, se os bárbaros invadirem o nosso território, será que as muralhas não podem se converter numa inexpugnável barreira para eles saírem?
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
O Obamacare é coercivo?
A pergunta é interessante porque de facto existe um mercado livre para a saúde nos Estados Unidos, o estado não monopoliza a prestação de cuidados de saúde neste país. Para além disto, o Obamacare não quer concorrer contra o mercado, o seu intuito é colmatar uma falha do mercado. Existem cerca de 34 milhões de pessoas nos EUA sem seguro de saúde, e isto na economia mais próspera do mundo. O mercado parece não se interessar por estas pessoas, tão somente porque não podem oferecer retorno económico. É indiscutível que isto afecta a liberdade destas, esta lacuna condiciona imperiosamente as suas vidas. Os problemas surgem não só quando estão doentes, o mesmo acontece se um familiar estiver doente, e o mesmo para um colega de trabalho.
Educação, idosos e respostas sociais
O caso da saúde não oferecer proveito económico nos EUA cria uma falha de mercado. Mas posso oferecer mais exemplos. A educação é um serviço que percorre toda a vida de uma criança e de um jovem, e ao mesmo tempo requer investimento. Como sabemos a natalidade está a diminuir, logo os investimentos na educação podem não compensar, tanto somente porque o retorno futuro diminui com menos jovens e crianças - menos clientes, menos negócio e menos incentivo para o investimento na área. Isto é um problema social, porque mesmo que tenhamos menos jovens no futuro, eles vão continuar a necessitar de educação. Há também a questão, que certas crianças precisam de cuidados acrescidos para receberem educação. O custo de educar jovens não é uniforme, há uns que aprendem com dedicação e esforço, e outros que não. Este problema também não implica abandonar os segundos. Todos precisam de educação, sem excepções.
O caso dos idosos é outro problema do ponto de vista do mercado, a esperança média de vida está a aumentar e isto representa custos económicos crescentes. A ideia que o mercado pode abandonar os idosos não é descabida, com a idade os custos aumentam vertiginosamente. Não há volta a dar, são precisas mais pessoas e mais despesa, em medicamentos por exemplo. O mercado quando vê investimentos crescentes com retorno menor, foge e procura algo mais aliciante. Isto é normal e natural no mundo empresarial, porém é obsceno pensar que podemos abandonar os idosos. Uma resposta social, mesmo que economicamente desfavorável, impõe-se sem qualquer tipo de hesitação.
As empresas hesitam perante os custos, uma sociedade não pode nem deve fazer o mesmo.
A humanidade como um fim - Parte 1
Um evento singular
Não sei precisar se foi um domingo, sábado, ou feriado, a primeira vez que o Barata despertou com pensamentos ousados foi um mero dia de lazer, e é só isto que posso transmitir quanto ao momento que deflagrou toda esta narrativa. Quieto, mudo, ensimesmado e nu, o nosso herói fixou o olhar no reflexo da sua face, num dos espelhos do quarto, e fez um desafio intrigante ao seu próprio ser, ou melhor, à sua própria alma. Uma única e singela pergunta que pôs tudo em perspectiva:
- Quem és tu?
Como devem calcular a alma não respondeu, nem sequer dignou-se a manifestar-se de forma alguma. Quanto a isto, Barata concluiu que não existe tal coisa chamada "alma". Se Descartes disse, "eu penso, logo existo", como a alma não diz nada, não faz nada e não pensa nada, a alma não pode existir. Barata vestiu-se lentamente disposto a revelar aos seus filhos e mulher uma outra ideia singular. Ele já não era o mesmo homem que no dia anterior, ele era um homem diferente.
Eu não sou o mesmo homem, a nossa existência comum deixou de fazer sentido
Os filhos não estavam em casa, mas o pequeno-almoço estava pronto para ele. Carolina estava à espera que o marido descesse do quarto para fazer-lhe companhia enquanto ele tomava a primeira refeição do dia. Ele entrou naquele espaço comum familiar e permaneceu imóvel em pé olhando para a sua mulher:
- Carolina, tenho algo para te contar. Espero que respeites o que te vou dizer. Tudo o que te direi tem uma lógica irrevogável.
Ela ignorou a solenidade que o Barata atribui ao assunto.
- Tudo bem, mas preparei aqui umas torradas e tens o teu sumo de laranja pronto.
- Antes disso, vou-te dizer algo. Lembras-te do nosso casamento há vinte anos?
- Claro que sim.
- Sabes que os nossos corpos estão em permanente regeneração, aquele homem que casou contigo há vinte anos já não existe, nenhum dos átomos do corpo desse homem permenece no meu corpo. Por isso, creio que a nossa relação já não faz sentido. Pelo menos, na perspectiva da lógica, não faz. Para além disto, eu hoje compreendi que a minha vida só faz sentido se dedicar-me por completo ao bem da humanidade. Quero levar a verdade aos meus semelhantes, quero que estes percebam as verdades fundamentais e essenciais. Todo o meu tempo será dedicado a isto. Vou abandonar o meu emprego e esta família. Espero que compreendas.
Carolina ficou pasma e revoltada. Mas quis levar a coisa com seriedade, acalmou-se para dar uma resposta:
- Sei que a questão da nossa identidade é complexa, mas o nosso casamento não se baseia só no que aconteceu há vinte anos. Desde então, estamos juntos. Nós renovamos o nosso casamento todos os dias. Depois, queres dedicar-te à verdade, aquilo que estou a dizer-te é uma verdade insofismável. E dizes que o teu fim é a humanidade. Eu pergunto: eu, os teus filhos, os teus pais e família, não somos também humanidade? Nós somos todos membros da família humana. Se te vais dedicar à humanidade, como podes esquecer-te da parte da humanidade que está mais próxima de ti?
Barata sentiu dificuldade em responder logicamente a tais questões, porém, conseguiu descortinar uma resposta.
Eu não sou o mesmo homem, a nossa existência comum deixou de fazer sentido
Os filhos não estavam em casa, mas o pequeno-almoço estava pronto para ele. Carolina estava à espera que o marido descesse do quarto para fazer-lhe companhia enquanto ele tomava a primeira refeição do dia. Ele entrou naquele espaço comum familiar e permaneceu imóvel em pé olhando para a sua mulher:
- Carolina, tenho algo para te contar. Espero que respeites o que te vou dizer. Tudo o que te direi tem uma lógica irrevogável.
Ela ignorou a solenidade que o Barata atribui ao assunto.
- Tudo bem, mas preparei aqui umas torradas e tens o teu sumo de laranja pronto.
- Antes disso, vou-te dizer algo. Lembras-te do nosso casamento há vinte anos?
- Claro que sim.
- Sabes que os nossos corpos estão em permanente regeneração, aquele homem que casou contigo há vinte anos já não existe, nenhum dos átomos do corpo desse homem permenece no meu corpo. Por isso, creio que a nossa relação já não faz sentido. Pelo menos, na perspectiva da lógica, não faz. Para além disto, eu hoje compreendi que a minha vida só faz sentido se dedicar-me por completo ao bem da humanidade. Quero levar a verdade aos meus semelhantes, quero que estes percebam as verdades fundamentais e essenciais. Todo o meu tempo será dedicado a isto. Vou abandonar o meu emprego e esta família. Espero que compreendas.
Carolina ficou pasma e revoltada. Mas quis levar a coisa com seriedade, acalmou-se para dar uma resposta:
- Sei que a questão da nossa identidade é complexa, mas o nosso casamento não se baseia só no que aconteceu há vinte anos. Desde então, estamos juntos. Nós renovamos o nosso casamento todos os dias. Depois, queres dedicar-te à verdade, aquilo que estou a dizer-te é uma verdade insofismável. E dizes que o teu fim é a humanidade. Eu pergunto: eu, os teus filhos, os teus pais e família, não somos também humanidade? Nós somos todos membros da família humana. Se te vais dedicar à humanidade, como podes esquecer-te da parte da humanidade que está mais próxima de ti?
Barata sentiu dificuldade em responder logicamente a tais questões, porém, conseguiu descortinar uma resposta.
- O bem da humanidade não pode depender só de um grupo restrito de pessoas. Se assim fosse, em última análise, podíamos sujeitar toda a humanidade só para salvar uma família, um grupo ou um clã. Depois, a minha tarefa é enorme. Se perder tempo com questões menores não serei capaz de realizar a minha tarefa. O fundamento do meu ser será só a verdade e na minha causa, nada mais.
Carolina tinha resposta para isto:
- Estás a entender a verdade como um conceito abstracto e distante. O teu ser começou numa família, depois cresceste e conviveste com aqueles que te rodeiam. Isto é objectivo, tu cresceste comigo e com todos aqueles que estão em teu redor. Independentemente, das ideias que tenhas agora, a tua vida desenvolveu-se a partir dos elos criados com outras pessoas, as que estão mais próximas de ti. Dizes que és uma nova pessoa, um pouco como um rio que chega à foz e afirma que deixou de ser rio para ser mar. Porém, a água do mar evapora-se, e se os rios deixarem de existir, o próprio mar cessa de existir. Não podes ser mar desligando-te dos rios que te criaram. Assim, o bem da humanidade como o mar, não pode ser independente dos seus rios, o fundamento da sua existência só pode subsistir se estiver ligado a uma fonte contínua de água.
A dificuldade de dar resposta a Carolina tornou-se tão emergente que o Barata saiu de casa incapaz de responder ao argumento do rio. A sua odisseia pelo bem da humanidade e pela verdade começou sem que ele fosse capaz de responder à lógica dos argumentos expostos pela sua mulher.
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
Tem lógica?
O Estado Novo era uma ditadura: "Estado Novo" = Ditadura
A democracia é uma ditadura: Democracia = Ditadura
Mas, se assim é:
"Estado Novo" = Democracia
Digamos, a lógica pode ser útil antes de ver este vídeo:
quarta-feira, 2 de outubro de 2013
Direitos (2) - 1 garrafa de água & 300 garrafas de água
O direito à propriedade pode ser subjectivo
Quando falamos de direito à propriedade estamos a falar de quê? É possível destrinçar o problema com uma questão:
1) Eu sei que vivemos num mundo em que existe abundância de laranjas. Agora, imaginem que me encontram na rua e eu tenho uma laranja na mão. Parto do pressuposto que a questão não se coloca, mas continuem a imaginar que são seres infinitamente curiosos e querem saber de quem é a laranja que tenho na mão. Eu poderia provar que a laranja é minha se tivesse um recibo como a comprei, mas esta experiência mental não acaba aqui. Se eu não tivesse nenhum documento que provasse que era o proprietário da laranja como poderia garantir com certeza infinita que a laranja é minha?
Resposta: os nossos bens ou propriedade só são verdadeiramente nossos quando legalmente e documentalmente podemos provar a nossa posse. E podemos garantir que o meio que adquirimos estes bens é legitimo e dentro da lei. Caso contrário, a pertença dos bens é meramente arbitrária e subjectiva.
A importância ou o valor que damos à nossa propriedade é igualmente subjectivo
Este é um aspecto muito relevante, dado que, é fonte constante de conflitos. Eu posso dar um imenso valor ao meu relógio da Boss e se alguém por acaso danifica-lo nem que seja ligeiramente, eu posso exigir um valor muito superior daquele que paguei pelo relógio, só por achar que este tem valor sentimental. Obviamente, que isto tem implicações: o valor que damos às coisas pode não ser proporcional ao valor de mercado. E o valor de mercado reflecte um conjunto de interesses e perspectivas, assim, também há coisas que o mercado não dá valor, quando na verdade este valor existe e é critico.
Vamos supor que toda a propriedade é mensurável
É difícil discutir o valor de uma marca, mas é impossível discordar que a marca Coca-Cola tem valor. Temos que perceber que para além do facto da propriedade poder ser avaliada de forma subjectiva ou relativa, há propriedade que tem valor mas este não é facilmente traduzido em termos monetários. Porém, apesar disto, creio que é possível atribuir um valor a toda a propriedade, desde que fosse possível recolher toda a informação relevante.
Quando a propriedade se intromete noutros direitos
Os direitos basilares que quero avaliar não exclui a existência dos demais direitos, porém quero-me cingir a apenas três: o direito à vida, o direito à liberdade e o direito à propriedade. Primeiro, há momentos das nossas vidas em que não temos propriedade, os casos e as possibilidades disto acontecer são imensas, mas para simplificar vou ficar-me por apenas um: os bebés.
As crianças e os nascidos possuem direitos mesmo não tendo propriedade
Eu suponho que da perspectiva normativa nenhum bebé possui propriedade, mesmo que se entenda que os pais possuem-na. Todavia, é indiscutível que um bebé tem direitos e quando cresce continua a ter direitos, mesmo que não possua qualquer bem material. Levanto a questão: educação, saúde, e desenvolvimento das crianças dependerá de alguma propriedade sua? Julgo que não, mesmo que os pais não possam garantir uma educação cuidada, a criança continua a ter direitos de instrução e outros. Isto leva-me a pensar que os direitos à propriedade são contigentes e relativos. Porquê: são contigentes porque dependem das características dos indivíduos e são relativos pelo simples facto de podermos mensurar os mesmos e o seu valor é subjectivo. Depois, mesmo que tenhamos o direito à propriedade como imprescindível podemos alegar que uma pessoa sem educação será afectada ao longo da vida no seu património por não deter educação.
A saúde é um direito da vida
Nem sempre os cuidados de saúde implicam uma situação de vida ou morte. Mas é garantido que os cuidados de saude podem garantir qualidade de vida e podem, em alguns casos, salvar vidas. Uma pessoa sem saúde será sempre condicionada no seu património e o facto de não ter património não lhe retira o direito à saúde que está directamente ligado ao direito à vida.
Respostas sociais
Este é um aspecto muito relevante, dado que, é fonte constante de conflitos. Eu posso dar um imenso valor ao meu relógio da Boss e se alguém por acaso danifica-lo nem que seja ligeiramente, eu posso exigir um valor muito superior daquele que paguei pelo relógio, só por achar que este tem valor sentimental. Obviamente, que isto tem implicações: o valor que damos às coisas pode não ser proporcional ao valor de mercado. E o valor de mercado reflecte um conjunto de interesses e perspectivas, assim, também há coisas que o mercado não dá valor, quando na verdade este valor existe e é critico.
Vamos supor que toda a propriedade é mensurável
É difícil discutir o valor de uma marca, mas é impossível discordar que a marca Coca-Cola tem valor. Temos que perceber que para além do facto da propriedade poder ser avaliada de forma subjectiva ou relativa, há propriedade que tem valor mas este não é facilmente traduzido em termos monetários. Porém, apesar disto, creio que é possível atribuir um valor a toda a propriedade, desde que fosse possível recolher toda a informação relevante.
Quando a propriedade se intromete noutros direitos
Os direitos basilares que quero avaliar não exclui a existência dos demais direitos, porém quero-me cingir a apenas três: o direito à vida, o direito à liberdade e o direito à propriedade. Primeiro, há momentos das nossas vidas em que não temos propriedade, os casos e as possibilidades disto acontecer são imensas, mas para simplificar vou ficar-me por apenas um: os bebés.
As crianças e os nascidos possuem direitos mesmo não tendo propriedade
Eu suponho que da perspectiva normativa nenhum bebé possui propriedade, mesmo que se entenda que os pais possuem-na. Todavia, é indiscutível que um bebé tem direitos e quando cresce continua a ter direitos, mesmo que não possua qualquer bem material. Levanto a questão: educação, saúde, e desenvolvimento das crianças dependerá de alguma propriedade sua? Julgo que não, mesmo que os pais não possam garantir uma educação cuidada, a criança continua a ter direitos de instrução e outros. Isto leva-me a pensar que os direitos à propriedade são contigentes e relativos. Porquê: são contigentes porque dependem das características dos indivíduos e são relativos pelo simples facto de podermos mensurar os mesmos e o seu valor é subjectivo. Depois, mesmo que tenhamos o direito à propriedade como imprescindível podemos alegar que uma pessoa sem educação será afectada ao longo da vida no seu património por não deter educação.
A saúde é um direito da vida
Nem sempre os cuidados de saúde implicam uma situação de vida ou morte. Mas é garantido que os cuidados de saude podem garantir qualidade de vida e podem, em alguns casos, salvar vidas. Uma pessoa sem saúde será sempre condicionada no seu património e o facto de não ter património não lhe retira o direito à saúde que está directamente ligado ao direito à vida.
Respostas sociais
O caso das crianças e da saúde implicam sempre uma resposta social. Esta não tem de vir necessariamente de nenhuma entidade especifica mas tem de existir. Quando dizemos que o direito à propriedade é prioritário, criamos um problema grave porque isto implica que direitos como a educação ou saúde são emanados a partir do direito à propriedade. O caso dos bebés refuta expressamente este conceito: os bebés não têm propriedade ou património mas possuem inalienáveis direitos.
Um caso como o direito à propriedade pode ser irrelevante
Eu falei do exemplo da laranja com um intuito precisa, chamar à atenção que propriedade pode ser um conceito discutível, e só com prova expressa podemos alegar que algo é nosso e foi obtido de forma legitima. Vou virar para outro exemplo: o das garrafas de água. Porquê? A água é essencial à vida e esta pode depender indiscutivelmente do acesso à água. Vejamos os seguintes casos:
A - Uma garrafa no deserto
Imaginemos que estamos num deserto a única possibilidade de sobrevivência depende do acesso a uma garrafa com água potável. Agora, vejamos a possibilidade de encontrar outra pessoa no deserto em que a carência de água exige beber algo imediatamente. O caso é um dilema moral simples de resolver: ambas as vidas têm igual valor, a nossa e a do outro. Faz sentido não partilhar água porque em todo caso apenas dos dois poderá sobreviver.
B - Trezentas garrafas de água
A mesma situação, porém desta vez o detentor da água possui 300 garrafas, transportadas num camião e ele possui provas irrefutáveis que estas 300 garrafas são sua prioridade. Neste caso, seria moral privilegiar o direito à propriedade em relação à vida de uma pessoa que precisa urgentemente de água? E se fossem 10 pessoas com a mesma situação de desidratação aguda? E se fossem 299?
Será que sequer podemos encarar nestes casos, o direito à propriedade como um direito absoluto? É que parece-me imoral rejeitar salvar uma, dez ou duzentas e noventa e nova vidas. Não será o direito à propriedade claramente relativo neste caso, perante um direito maior: o direito à vida?
A dissipação de potencial
Outro argumento que revitaliza o direito à propriedade, é económico. Nós alegamos que o direito à propriedade é absoluto, mas parece que a propriedade tem uma utilidade marginal decrescente para os seus detentores. Tendo em conta o exemplo A) e B) e acrescentando o facto que uma pessoa com dois triliões de euros terá exactamente o mesmo bem estar e qualidade de vida que uma pessoa com só um trilião, como podemos justificar que a tributação a esta pessoa é coerciva, dado que o valor arrecadado terá com elevado grau de certeza maior utilidade para outros do que para o detentor original de capital?
Conclusão
O direito à propriedade é relativo, como nos exemplos das garrafas de água. Há direitos que não são emanados do direito à propriedade, como é o caso dos bebés, ou a educação dos jovens. O mesmo pode-se dizer da saúde, as pessoas têm direito á saúde mesmo tendo em conta condicionantes materiais. São precisas respostas sociais para a saúde ou educação. Por fim, a acumulação de património torna a utilidade marginal desta menor, o que parece indicar que prevenir riquezas colossais não traz grande mal ao mundo. Se a riqueza tem um valor subjectivo, o mesmo não se pode dizer da vida ou da liberdade. A vida é objectivamente mais relevante que o direito à propriedade.
terça-feira, 1 de outubro de 2013
Direitos (1)
Quais são os direitos dos seres humanos? Pergunta curiosa, ou melhor, curioso é a quantidade inimaginável de direitos que poderiam ser descortinados se fizéssemos um inquérito universal. A diversidade humana é tão vasta que dificilmente encontraríamos consenso nesta área. Logo por aqui, há um problema de triagem que se afigura complexo. Aliás, se pensarmos que a percepção dos direitos que temos é subjectiva, é fácil apreender que teríamos problemas absurdos por resolver. Imaginem uma criança que alega furiosamente que tem direito ao chocolate, como poderíamos objectivamente argumentar que o chocolate não pode ser um direito, se assumimos à partida que os direitos são subjectivos?
Suponho que uma solução possível seja encontrar um conjunto de direitos que seja relativamente comum. Em todo o caso, dificilmente podemos reduzir os direitos das pessoas a um único axioma fundamental. É fácil explicar, penso que o direito à liberdade, que se consubstancia em liberdades da esfera pessoal e pública, é tão fundamental e é tão forte que eu não posso negar este direito a mim próprio e a outras pessoas. O direito à vida é outro que me parece ser indiscutível, afinal, depois da morte não é possível usufruir de direitos, mundanos pelo menos. Por fim, temos o direito à propriedade. Eu considero este um direito fundamental, a dependência económica condiciona a vida das pessoas. Por outro lado, a noção de esfera privada implica termos o direito a ter o nosso espaço livre de interferências indesejáveis.
Sumário:
Eu não quero escrever um tratado sobre direitos humanos. Quero, apenas, reflectir sobre esta temática. Ponto de partida:
1) Podem existir muitos "direitos fundamentais". Eu quero apenas discutir três: o direito à liberdade, o direito à vida e o direito à propriedade. Como é que estes três se relacionam e como estes direitos são importantes para o nosso quotidiano.
Roubo pela tributação?
O argumento do bilhete de cinema
Os exemplos podem ser muito úteis para compreender questões complexas, ou para desmistificar falácias. Antes de partir para o caso da tributação como roubo, quero passar por uma sala de cinema para ver o último filme do Tarantino. Para isto acontecer, eu começo por dizer que eu recebo utilidade vendo filmes numa sala de cinema.
O cinema oferece duas coisas: um serviço, que está relacionado com o conforto, iluminação, pipocas, em suma, todas as condições aprazíveis para o filme ter qualidade de som e imagem; e um bem, que aqui é o próprio filme do Tarantino. Eu digo que o filme é o bem e distingo este do serviço, porque é o mesmo serviço seja para que filme for. Um filme mau é independente da qualidade do serviço que o cinema presta.
Obviamente, que quando eu vou ao cinema tenho que pagar o bilhete. Mas há uma contigência que não depende directamente do prestador de serviço do cinema. Eu conto com a colaboração dos outros espectadores. Eu espero, pelo menos, que tentem fazer pouco barulho e que respeitem o conforto e bem-estar dentro da sala de cinema. Se alguém não respeitar as regras, eu posso exigir que as respeitem, só pelo facto de eu ter pago o bilhete. Atenção, o meu acto de exigir respeito pelas regras baseia-se numa premissa de reciprocidade. A sala é um espaço partilhado, logo, todos temos que reconhecer a necessidade de regras, caso contrário, o filme não é usufruído da melhor forma. Outro aspecto relevante, eu estou a contar que todos os presentes na sala pagaram o bilhete. A razão é simples, o filme só está em exibição porque há pessoas dispostas a pagar por este. E se houver fraude nas entradas, aqueles que a executam estão a prejudicar não só o prestador de serviço, como todos os espectadores que pagaram bilhete.
A nota final sobre este exemplo, vai para o prestador de serviços. Primeiro, a qualidade deste serviço depende que todos paguem as entradas. Segundo, faz parte da função do prestador que as regras sejam respeitadas. Terceiro, os espectadores que vão ver os filmes têm noção que pagam o bilhete por filme, mas ao mesmo tempo, pagam pelo investimento feito nas instalações do cinema.
O caso da tributação
Antes de passar para a discussão deste tema, tenho de supor que o estado presta serviços - saúde, justiça, educação, protecção ambiental, segurança -, e oferece bens - estradas, aeroportos, portos, redes ferroviárias, redes de distribuição de àgua ou electricidade, esgotos, etc. Parece-me indiscutível que ninguém pode, simplesmente, não ser beneficiado de muitos destes bens e alguns dos serviços. Ou seja, só tendo em conta a electricidade em Portugal, temos presente que a REN foi construída pelo Estado. Acrescento, por exemplo, que o mar é um bem comum, o mesmo para reservas ambientais ou rios. Por fim, nós também somos beneficiados indirectamente, por exemplo, a SONAE distribui bens alimentares pelo país utilizando a rede ferroviária ou rodoviária, e este beneficio chega a mim, porque faço compras na rede de supermercados da SONAE.
Eu pago impostos porque quero ser servido dos bens e serviços do estado
Sabendo que existem bens e serviços prestados e oferecidos pelo Estado, parece-me consensual que, havendo a necessidade de manter estes, ou pelo menos, garantir que estes estejam em condições, eu infiro logicamente que os estado precisa de recursos para continuar a oferecer bens e a prestar serviços públicos. A minha inferência não é irrelevante, porque é uma evidência expressa e explicita.
Quem usufrui dos bens e serviços do estado deve pagar por eles?
Da mesma forma que no cinema, quem paga impostos conta que todos aqueles que obtém benefícios do estado façam o mesmo. É que se assim não for, há um oportunismo rapace. Os bens e serviços do estado carecem de recursos para serem concretizados, e estes advém da tributação, se alguém usufruir dos bens ou serviços sem pagar impostos, não estará a usurpar propriedade daqueles que pagam? Tenho a certeza que este comportamento é imoral, afinal o usufruto existe. Mesmo discordando do papel do estado, o beneficio é real e palpável.
Atenuantes
É preciso ver que quem paga impostos, e requer reciprocidade dos outros para também fazer o mesmo, não está a exigir algo que não faz. É fácil dar um exemplo directo, se eu pago impostos para receber bens e serviços, porque não poderei dizer: se tu usas bens dos estado e recebes serviços do estado porque não hás-de pagar impostos?
O exemplo que a tributação é um roubo, não tem em conta esta relação de reciprocidade entre cidadãos. Por outro lado, a tributação é uma fracção do rendimento dos cidadãos, e a cobrança é proporcional de forma uniforme. Ou seja, ninguém exige a outro que faça mais daquilo que ele próprio está disposto a fazer. Isto não me parece imoral.
Conclusão
O argumento que a cobrança de impostos é igual a um roubo através de um intermediário é completamente falacioso, porque não têm em conta a reciprocidade e o facto indiscutível que todos beneficiam directa ou indirectamente dos bens e serviços do estado. Sugerir, que estes bens e serviços podiam ser oferecidos e prestados por outra entidade, não altera nenhuma das premissas apresentadas.
segunda-feira, 30 de setembro de 2013
Proibições
Neto: O sexo é bom.
Pai: O sexo era melhor quando era proibido.
Avô: O sexo era bom quando era proibido e ainda era melhor quando era pecado.
Ferramentas
Um exercício comum na labuta política é elevar-se perante os outros: nós somos o rumo certo, eu sou democrata, eu defendo na liberdade. Há um conjunto infidável de atributos que podem ser usados neste discurso: rigor, determinação, coragem, sensibilidade, rasgo oratório, etc. Depois, há a dificuldade em compreender como estes atributos traduzem-se em resultados: rigor em quê, determinação sobre que objectivo, coragem em relação a quem ou a quê, o que é sensibilidade social? O rasgo oratório é um problema constante: será que conseguimos descernir se num discurso os significantes possuem significado?
A objectividade poderia introduzir um ciclo virtuoso no debate político: destacar o que é importante e ser capaz de mensurar os resultados da acção política, tiravam a limpo o que é útil e necessário e o que é inútil e constitui um fardo. Como será que a argumentação e a lógica podem ser ferramentas da democracia? Que mecanismos podemos utilizar para aperfeiçoar a democracia?
domingo, 29 de setembro de 2013
O poder da ficção
A Ficção Como Explicação
Há poucas semana o meu tio Carlos veio-me com uma história engraçada sobre a origem da palavra "sacana" no japonês. Segundo o seu relato, a origem é lusa. Os portugueses quando chegaram ao arquipélago nipónico no séc. XVI gostavam de pescar nas suas naus. Os japoneses notaram quando vinha no anzol um peixe pequeno, o descobridor que deu novos mundos ao mundo, dizia "sacana" e devolvia o bicho ao mar. E, assim, ainda hoje os japoneses chamam um peixe pouco avantajado de "sacana".
A história, vim a comprovar não é verídica, julgo até que o contágio semântico foi no sentido inverso, ou seja, a palavra portuguesa "sacana" é que pode ter origem no japonês. Enfim, verídica ou não, este relato é uma tentativa de explicação. Faz lembrar muitos outros relatos, sobre a origem do homem, do mundo ou do universo. Ficções que, mesmo sem terem grande validade, moldaram a nossa história e o percurso da humanidade.
Estas ficções podem ser uma necessidade intrínseca da nossa espécie. Somos munidos de curiosidade e ambicionamos compreender o nosso sentido da vida. Queremos compreender o que nos rodeia. O método cientifico nem sempre foi uma ferramenta disponível, nem sempre esteve ao nosso dispor. Sobravam as narrativas e as mitologias para encontrar senso na origem das coisas, as causas dos fenómenos. Esta influência da ficção perdura ainda hoje...
A ficção para modelar comportamentos
A ideia que a religião é uma ficção pode ser controversa, a religião emana normas de conduta mas podemos veicular as mesmas à fé e à crença divina. Em todo o caso, é possivel duvidar que todas as normas católicas tiveram inspiração divina, muitos feriados religiosos foram adaptados de feriados pagãos, por exemplo. E a dúvida agudiza-se numa outra perspectiva, vejamos o seguinte exemplo: o que será a mitologia grega para um católico senão uma ficção? Os deuses egípcios não serão meras construções da imaginação na perspectiva de um muçulmano? É indiscutível que estas criações moldaram o comportamento de muitos seres humanos, basta ver a edificação das pirâmides de Gizé.
Porém, há outras convenções que modelam o nosso comportamento. Reis e imperadores tinham éditos e aplicavam a sua justiça. A discussão sobre o que é ficção continua noutras categorias, um país ou estado são ficções? Eu suponho que sim, o povo português nasceu a partir da vontade de uma minoria que depois foi-se alargando e interligando ao longo de séculos, e esta união baseia-se numa cultura comum. Depois, os povos vão buscar a sua razão de ser e a sua essência a lendas e narrativas. As convenções culturais não enganam, são arbitrárias. A celebração do Natal baseia-se num produto criativo colectivo chamado Pai Natal, uma ficção flagrante mas que move um consumismo desenfreado de milhões e milhões de pessoas.
Continuando no mundo da ficção, temos o modo como algumas pessoas justificavam a existência da escravatura, ou do colonialismo. Os seres humanos criam ficções para moldar o comportamento dos outros, e ao mesmo tempo, usam-nas para justificar os seus actos. A teoria racial nos nazis aparentava ter um fundo cientifico, e muitos dos carrascos da Segunda Guerra Mundial justificaram as suas atrocidades perante o dever. O que é dever aqui? Dever em função de quê? E o que é uma raça?
Estes exemplos parecem demonstrar que as ficções podem ser terrivelmente atrozes e terem consequências perversas. Os homens precisam de ficções para regular a sua vida social, a vida em sociedade depende de uma cooperação massiva de pessoas. Nós criamos símbolos como hinos, bandeiras para representar uma pátria. E sobre a égide destas construções imaginativas podes criar um mundo de paz social, ou um mundo totalitário.
A ficção como depósito de esperança
A ciência pode ser normativa e ser pouca dada a ficções, todavia se formos a ver a teoria de Galileu sobre o Heliocentrismo verificamos que esta abalou fortemente a convicção que a Igreja Católica é detentora de verdades absolutas, o que abriu caminho a outro tipo de ficções como a elucidada pela Revolução Francesa: Igualdade, Fraternidade e Solidariedade. A noção que o poder absoluto dos monarcas também foi derrubado na criação da primeira república da modernidade plasmada na Declaração de Independência dos EUA.
As ficções são um elemento muito relevante na transmissão de valores, "A Cabana do Pai Tomás" foi um livro que descreveu o sofrimento dos escravos, deu unidade e massa critica ao movimento abolicionista. A noção de liberdade ou de coragem pode ser preservada, nutrida e transmitida através de narrativas e criações literárias. O compromisso com a ética depende de produtos da imaginação tais como a "máquina de experiências" ou a história do "anel de Giles". Aliás, muito do que conhecemos do mundo dependeu de todo um conjunto de exemplos, casos, narrativas de todo o tipo, que permitem apreendermos a verdade daqueles que nos rodeiam. As nossas memórias são falíveis, o próprio convívio com outras pessoas pode basear-se em crenças imprecisas, sem que isto traga grande mal ao mundo.
O poder transformador da ficção
Diria o nosso poeta: quando o homem sonha, o mundo pula e avança. Quando falamos da luta pela liberdade, no desafio de construir um mundo melhor, devemos compreender que as nossas crenças podem basear-se em ficções e aqui o conceito de ficção não está associado a uma ilusão ou fantasia. Sonhar com uma democracia para o nosso país, foi uma ficção por longas décadas. Apesar disto, houve uma transição democrática relativamente pacífica o que permite concluir que a ficção da liberdade não pode ter sido considerada uma fantasia, pois, concretizou-se.
A história oferece-nos um infindável número de exemplos de heroísmo, coragem e integridade. Por vezes, ignorando a sua própria segurança ou bem-estar, houve pessoas que correram riscos por ideais e ideias que começaram por ser um mero conceito abstracto para, finalmente, ganharem forma nas nossas sociedades. O sacrifício pessoal parece surgir do âmago emocional, ao invés, do ímpeto racional de prosperar ou levar uma vida de conformismo.
O poder da ficção é imenso, conhecendo esta faca de dois gumes sabemos que esta pode levar-nos para as trevas e da escuridão nos libertar, assim a única conclusão que posso transmitir sobre a ficção é que não podemos definitivamente a subestimar.
sábado, 28 de setembro de 2013
Fins Contigentes e os Castelos Imaginários
Começo por dizer que o nosso pensamento não altera a substância das coisas. Passo a explicar com um exemplo, o aço não existe na natureza. É verdade que são precisas capacidades cognitivas - pensamento - para produzir uma liga metálica com a resistência e ductilidade do aço, mas o certo é que, se fomos ver as suas componentes - ferro, carbono ou outros metais -, nenhuma destas é produzida pelo pensamento, ou seja, pertencem ao mundo físico independentemente daquilo que o nosso cérebro é capaz de imaginar ou sintetizar.
No mundo físico, ou até mesmo em ciências como a biologia ou a física, é relativamente fácil de apreender que o pensamento não altera a substância das coisas. O caso muda de figura, no mundo social, na ética, ou na matemática. Como já li, o raciocínio matemático não apela para o mundo físico, baseia-se em axiomas. Apesar de tudo, podemos sugerir com alguma segurança, que a matemática é objectiva: 2+2=4. Não é impossível descortinar uma assembleia para deliberar qual é o valor da soma de dois mais dois, mas independentemente do que a assembleia decidir, esse resultado será sempre quatro.
Resta-nos o mundo social. Se formos a ver, o que é "contrato social", uma definição possível seria: "o conjunto de regras a que as pessoas concordarão em obedecer, para benefício mútuo, na condição de as outras pessoas também lhes obedecerem."
Quando comparamos uma liga metálica e um contrato social, podemos dizer que ambos têm componentes. O aço possui ferro ou carbono, o contrato social possui regras. Porém, as regras são de uma natureza ou substância muito diferente das do ferro ou carbono. As regras podem ser dispares, controversas ou, até, contraditórias. Se fizéssemos um inquérito internacional, e perguntássemos a pessoas diferentes partes do mundo, ou até pessoas que vivem numa mesma região, mas com caractetísticas diferentes, como género, idade ou condição económica. E a cada uma destas, pedíssemos um conjunto de 7 regras ou normas de conduta social, é muito plausível que encontraíramos contratos sociais muito diferentes um dos outros.
Os castelos perfeitos
No mundo social, há a política. Por sua vez nesta, há diversas visões ou paradigmas políticos. Uns mais consistentes e duradouros que outros. O comunismo é uma ideologia que existe há décadas, o mesmo podemos dizer do liberalismo, da social-democracia, da democracia-cristã, etc. Estas visões políticas partem de abstracções que resultam em normas ou regras com um fim de produzir um resultado social - um mundo sem desigualdades sociais, por exemplo. Para além disto, há um debate muito vivaz entre aqueles que são afectos a diferentes ideologias. Este debate, também resulta em competição e confronto.
Voltemos à proposição inicial: o pensamento não altera a substância das coisas. Será esta proposição verdadeira? Expliquemos porque a questão é importante. Como já foi dito, as visões políticas podem nascer da observação do mundo social, da economia ou da vida comunitária. Este mundo é factual, por exemplo, existem empresas e juntas de freguesia, existiu a escravatura institucionalizada, a violência continua a ser uma realidade. Na verdade, se formos a ver bem, existem milhares de coisas num mundo social, chamemos estes de agentes. E, ao mesmo tempo, existem entre estes agentes milhares de interacções de tipos diferentes. Os agentes podem ser indivíduos, e podemos dizer que cada um destes é uma singularidade, com diferentes características, personalidades ou preferências. Os agentes podem ser colectivos, uma junta de freguesia, um ministério, uma empresa, uma associação, um país, etc. Por sua vez, é quase indiscutível que as possibilidades de interacções entre estes agentes é quase ilimitada.
A substância das coisas é complexa
Apercebendo-nos da diversidade de agentes e do colosso de intercações possíveis, é difícil discordar que o mundo social é complexo. Nós podemos afirmar que o mundo social é de tal ordem complexo que nada pode ser feito para fazer recuar consequências nocivas dos seus agentes e interacções. Ou seja, nada pode ser feito para alterar a substância intricada do mundo social. A razão é simples, ao contrário do aço, onde temos uma liga metálica unida por laços sólidos que podem ser manipulados pelo calor, é impossível ter o controlo perfeito do mundo social. Apesar desta constatação, é possível ir agora buscar o conceito de "contrato social" e dizer, que apesar de o mundo ser caótico, se incluímos algumas regras a sua complexidade pode adquirir um caracter mais benéfico e produtivo. Como já foi dito, há aqui o problema de "que regras"? Os agentes observam o mundo de forma limitada, ou seja, nenhuma pessoa consegue observar todo este mundo complexo, assim, qualquer pessoa que advogue regras para um contrato social, parte sempre de um fragmento muito pequeno daquilo que é o mundo, e de uma perspectiva sempre muito subjectiva, logo as regras serão sempre limitadas, fragmentadas e imperfeitas.
E mesmo que estas pessoas se organizem, e diferentes perspectivas se confrontem em debate ou em competição eleitoral, dando origem a "contratos sociais" mais consistentes e fiáveis, há outro problema patente: o mundo está em permanente mutação. O que leva a concluir que estas visões possam ter lacunas tendo em conta uma observação imperfeita e podem tornar-se desgastadas e desadequadas, porque estão sempre a emergir novos problemas com consequências nocivas.
Castelos Imaginários
É fácil demonstrar, do que foi dito, que construções ou abstracções políticas são sempre falíveis ou terrivelmente imperfeitas. Quanto maior for o universo do mundo social que estas visões devem incidir, mais desadequadas estas podem ficar. Fica a ideia que são como castelos. Um castelo têm muros, é uma protecção contra agressões da natureza ou ataques nefastos. Quanto mais coisas queremos proteger neste castelo, mais forte e maior este terá que ser. Porém, se adjectivamos um objecto como imaginário este deixa de existir? Não, de facto, existem castelos e comparar as visões políticas ou ideologias a castelos imaginários perfeitos é uma mera metáfora que sugere que um castelo perfeito só pode existir na imaginação, o mesmo já não se pode dizer de outro tipo de construções, que embora imperfeitas, existem e parecem funcionar.
Fins contigentes e meios contigentes
Eu comecei o texto com uma máxima discutível: o pensamento não altera a substância das coisas. Mergulhei no mundo social e alertei para a complexidade flagrante deste. Falta, concluir porque afirmo que esta máxima é discutível. Nós, afinal, podemos alterar a substância das coisas, desde que esta seja contigente. Nós podemos considerar a honestidade ou a solidariedade como conceitos abstractos difíceis de serem conduzidos a todos os seres sencientes do planeta terra, mas nós podemos ter um comportamento honesto e solidário. E podemos nas nossas comunidades incutir a honestidade ou a solidariedade. O mundo da nossa comunidade é complexo, mas está próximo. Podemos influenciar outros seres conscientes que estão próximos de nós, e podemos influenciar as interacções entre estes agentes. O problema das ideologias não reside só na questão se são boas ou más, ou se são válidas ou não. Nós como seres limitados podemos, simplesmente, sermos incapazes de implementar castelos artificiais e imaginários. Somos seres contigentes: no tempo, no perímetro de acção, na disponibilidade ou nas ferramentas que detemos. Tendo meios contigentes, pode ser mais útil dedicarmos-nos a fins contigentes, que estão ao nosso alcance e no nosso perímetro de acção. Por vezes, penso que esta constatação não é uma evidência por razões de ego ou de ambição. D. Quixote queria combater os gigantes moinhos de vento para que o seu nome soasse na posteridade. Os problemas de um mundo complexo e intricado podem não ser moinhos de vento, mas a permanência inútil na persecução destes fins só pode ser explicada pela mesma razão que Cervantes colocou o seu herói a investir sobre uma fantasia.
sexta-feira, 27 de setembro de 2013
O Grimaldi
- Doutor, estou deprimido. Preciso de ajuda.
- Sim, o seu caso é grave mas tem uma solução, vá ver o palhaço Grimaldi.
- Doutor, há um problema.
- Qual?
- Eu sou o Grimaldi.
Do Ricardo Araújo Pereira, Visão.
- Sim, o seu caso é grave mas tem uma solução, vá ver o palhaço Grimaldi.
- Doutor, há um problema.
- Qual?
- Eu sou o Grimaldi.
Do Ricardo Araújo Pereira, Visão.
terça-feira, 24 de setembro de 2013
sábado, 21 de setembro de 2013
Isso não é prioritário.
Podemos sempre anular argumentos por diversas ordens de razão. Por exemplo, podemos dizer se A é prioritário, B não é importante.
B não deixa de ser importante por A ser prioritário.
Vejamos um exemplo:
Beber água regularmente é prioritário em relação ao sexo. Logo, o sexo não é importante.
Duvido que alguém deixe de pensar que o sexo é importante, mesmo que existam milhares de outras necessidades prioritárias.
sexta-feira, 20 de setembro de 2013
Liberdade de Dispersão (1)
Os homens acotovelavam-se em conversas dispersas. O vinho desperta espíritos latentes. Não podemos libertar os nossos fantasmas, se nós próprios somos o seu inexpugnável cárcere. Somos reféns dos nossos prisioneiros. Isto sobressaia em cada detalhe dos diálogo travado naquela mesa redonda.
Eram quatro homens, o espectro etário ia das vinte e sete primaveras até os vinte e um invernos, em cada perna. Estas duas pernas eram de Rogério, o ancião do grupo. Os outros três, eram: Agostinho (27), Viriato (31) e Salomão (38). Ao todo, cento e trinta e oito anos de experiência acumulada. A sabedoria de um colectivo centenário, porém, não é a mesma de um velho que sobreviveu aos tempos insondáveis.
V: Dizes tu, se estamos a intuir que mentes, é porque te consideramos um mentiroso?
A: Claro que sim!
R: Imagina o seguinte, Agostinho. Consegues imaginar um gato verde?
A: Consigo, mas já sei que vai sair mais um disparate filosófico.
V: Não consegues compreender o que é um exemplo?
A: Sei o que é um exemplo, mas não sei o que é um gato verde. Não existem gatos verdes.
R: Exactamente, não existem! Todos temos a certeza que não existem gatos verdes, ou azuis, ou púrpura. Certo?
A: Claro que sim. Certíssimo.
R: Agora imagina que, por alguma ordem de razão, chegavas cá e dizias que viste um gato azul.
A: Absurdo! Jamais!
R: Não consegues ver-te com a bezana?
A: Consigo.
R: E a embriaguez não poderia afectar o teu discernimento?
A: Não tanto.
R: Vamos lá ver outro ponto: há algum impedimento cognitivo ou anatómico que te impeça definitivamente de sugerir que viste um gato verde?
A: Julgo que não, mas isto não tem lógica.
R: O gato verde é um exemplo para chegarmos a uma conclusão lógica.
A: Não gosto desse exemplo, é totalmente inverosímil, irrealista.
V: Eu julgo que posso ajudar. Agostinho, diz-nos alguma proposição que imperativamente ninguém reconhecesse como verdadeira. Uma, seja ela qual for. "Eu vi um unicórnio", é um exemplo.
A: Já sei.
V: Diz.
A: Se eu disser que o Andorinha ganhou o campeonato da Primeira Divisão em 2002, duvido que alguém leve isto, minimamente, a sério.
R: Perfeito! Portanto, seria uma mentira, mas ninguém do mundo do futebol reconheceria essa afirmação como verdadeira.
A: Sim.
R: Logo, apesar de ser uma mentira, não seria um logro?
A: Sim, acho que não enganaria ninguém.
R: Pará além disto, precisamos de ter em conta o contexto. Imagina que eu diria: o Capitão Nemo, abandonou o seu Náutilus, para festejar a vitória do Andorinha no Campeonato Nacional de Futebol.
A: Sim, mas qual é a diferença?
R: O Capitão Nemo não existe, é uma personagem de uma narrativa de ficção. Porém, há uma verosimilhança. Ninguém, com alguma sanidade, acreditaria que o Capitão Nemo é uma mentira. Ninguém acredita que Capitão Nemo exista, da mesma forma que ninguém acreditaria que o Andorinha ganhou um Campeonato de Futebol.
A: Claro que sim, mas para quê tanta conversa?
R: A questão é importante porque mesmo que soubéssemos que mentiste, pode não ser condição suficiente, ou adequado, considerar que és um mentiroso.
A: Não consigo porque não foi dito isso logo...
R: Assim ficaste a perceber que a consequência de chamar-te mentiroso pode não ser justa, se os antecedentes não serem adequados. E tens elementos que comprovem isto.
A: Muito bem. Posso dizer que percebi.
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
A minha memória?
Comecei, recentemente, a notar que a minha memória detém uma influência significativa no meu quotidiano. Eu tenho uma memória explosiva, ou seja, uma mera observação ou pensamento, faz disparar um conjunto de associações ou conexões que, até certo ponto, não são controladas por mim. Estas associações nem sempre são dotadas de precisão, aliás, quanto a factos, não tenho uma memória brilhante.
Gostava de compreender este e outros mecanismos da memória. Sei que o hipocampo está relacionado com a memória. Lembro-me do Steiner afirmar que a memória precisa de ser saciada, da mesma forma que a curiosidade. O conhecimento é desejável, logo a busca do conhecimento pode ser tão importante como a sua perservação. Até que ponto a memória pode condicionar a felicidade? Ou a tomada de decisões que nos conduzem para uma vida mais completa? Como a memória influencia as nossas relações?
Um bom caso para pesquisar e reflectir...
terça-feira, 17 de setembro de 2013
Ted Talks: porque estão as abelhas a desaparecer?
Oradora: Marla Spivak
Síntese:
Causas do desaparecimento das abelhas:
- Agricultura intensiva baseada em monoculturas.
- Pesticidas.
- Parasitas e Enfermidades.
- Retrocesso de ambientes naturais, recheados por flores.
Link: Marla Spivak: Why bees are disappearing
Síntese:
Causas do desaparecimento das abelhas:
- Agricultura intensiva baseada em monoculturas.
- Pesticidas.
- Parasitas e Enfermidades.
- Retrocesso de ambientes naturais, recheados por flores.
Link: Marla Spivak: Why bees are disappearing
domingo, 15 de setembro de 2013
Idomatic English (1)
"Built like a Mack Truck" - USA
Algo que foi construído de forma sólida e segura, que providenciará um bom serviço, será útil ou frutuoso por muitos e longos anos.
Algo que foi construído de forma sólida e segura, que providenciará um bom serviço, será útil ou frutuoso por muitos e longos anos.
Distorção Subjectiva
Quando me falta a verdade, falta-me tudo.
Reconheço que o meu sistema nem sempre digere bem a verdade. No entanto, ainda não encontrei ninguém que fosse diferente.
Sei que a bondade é necessária, mas nunca ambicionarei ser bondoso. Nem desejo isso para nenhum ser humano decente.
Sobra a questão, como poderemos transmitir uma verdade objectiva se somos todos emissores e receptores subjectivos?
Logica infecunda (2)
As pupilas do coração
As células do coração podem ser um pouco como as pupilas gustativas. Há pupilas que gostam do salgado, outras do amargo e sabor ácido, há umas que vibram com umami, e mais outras que torcem-se pelo doce. E, tal como as pupilas gustativas, as células do coração preferem ser estimuladas todas ao mesmo tempo.
A lógica formal é infecunda (1)
Quando me dizem:
Todos os filósofos são humanos.
Sócrates é um filósofo.
(Logo) Sócrates é humano.
Todos os filósofos são humanos.
Sócrates é um filósofo.
(Logo) Sócrates é humano.
Posso concluir que este argumento formal não acrescenta verdade ao mundo. A lógica formal parte de verdades alargadas para chegar a verdades particulares. Não deixa de ser útil por isto, aliás há processos de inovação - muito úteis - que partem do mesmo principio. Porém, resta a dúvida se o pensamento lógico pode ser sempre útil.
Vejamos o seguinte caso:
Se atirarmos uma moeda ao ar, quando esta cai no chão, a face superior tanto pode ser cara como coroa.
Para vencer a moeda ao ar, é preciso apostar na face visível quando a moeda cai no chão.
Para vencer a moeda ao ar, é preciso apostar na face visível quando a moeda cai no chão.
O Luís apostou na cara.
O Luís pode ser vencedor.
O argumento é formal e tem validade material. Todavia, se moeda estiver viciada, e a probabilidade de sair coroa é de 98%, e da cara é de 2%. O argumento continua a ter validade formal e validade material, mas não fornece uma explicação para o facto do Luís ter perdido uma fortuna em apostar na face errada.
Em política pode acontecer algo similar. Vejamos a seguinte promessa eleitoral:
Político BP:
Eu prometo criar emprego.
Agora vejamos se é válido este raciocínio:
No fim do mandato a taxa de desemprego mantém-se similar à inicial. Porém, o político BP quis construir um obelisco no centro da cidade, contratando assim trabalhadores e engenheiros para realizar a obra.
Argumento:
Construir um obelisco requer criar emprego.
Foi BP que solicitou a construção do obelisco.
Logo, BP criou emprego.
O argumento é claramente desadequado, todavia, tem validade formal e validade material - é verdadeiro. Em política, há esta tendência que desvirtua o debate e a discussão dos temas. A lógica formal aqui continua a ser infecunda, pior funciona como um logro.
Como resolver este tipo de problemas?
O Luís pode ser vencedor.
O argumento é formal e tem validade material. Todavia, se moeda estiver viciada, e a probabilidade de sair coroa é de 98%, e da cara é de 2%. O argumento continua a ter validade formal e validade material, mas não fornece uma explicação para o facto do Luís ter perdido uma fortuna em apostar na face errada.
Em política pode acontecer algo similar. Vejamos a seguinte promessa eleitoral:
Político BP:
Eu prometo criar emprego.
Agora vejamos se é válido este raciocínio:
No fim do mandato a taxa de desemprego mantém-se similar à inicial. Porém, o político BP quis construir um obelisco no centro da cidade, contratando assim trabalhadores e engenheiros para realizar a obra.
Argumento:
Construir um obelisco requer criar emprego.
Foi BP que solicitou a construção do obelisco.
Logo, BP criou emprego.
O argumento é claramente desadequado, todavia, tem validade formal e validade material - é verdadeiro. Em política, há esta tendência que desvirtua o debate e a discussão dos temas. A lógica formal aqui continua a ser infecunda, pior funciona como um logro.
Como resolver este tipo de problemas?
sábado, 14 de setembro de 2013
A Senhora Simpática [Diálogo Verídico]
A senhora simpática que gosta do Passos:
Diz ela:
- Já que gosta de política, vou dizer uma coisa que não vai acreditar...
- Impossível, nesta terra acredito em tudo.
- Eu gosto do Passos!
- Qual Passos?
- Ora essa, o Passos.
- O John dos Passos?
- Não é esse, o outro.
- Qual outro? Não estou a ver.
- Claro que está a ver.
- Não. Não estou. Qual Passos?
- O primeiro.
- Qual primeiro? O seu primeiro marido?
(Risos)
- A sério. Não estou a ver.
- Aí! O coiso!
- Eh pah! Não estou mesmo a ver. Qual Passos?
(E estava a ser sincero.)
- O Passos. O Coelho Passos.
- Ah! O Passos Coelho! Pois, é verdade. Não acredito.
- Não disse?
- Disse, mas eu não acredito.
- Não acredita. Foi como eu disse.
- Mas quem gosta do Passos Coelho neste país?
- Eu. Eu gosto.
- Não acredito.
- Gosto. Gosto muito dele. Ele é que aguenta o país.
- O país é que não aguenta com ele.
- Este país é mesmo assim.
- Pois, por causo dos Passos.
- Quais passos?
- Os passos do Passos.
- Acredite em mim, ele faz muito por este país.
- Olhe que não.
(Já parecia o Cunhal com esta.)
- Olhe que sim. Ele aguenta o país.
- Mas o país afunda por causa dos passos de gajos como o Passos.
- Quais Passos?
- Os passos de gajos como o Passos Coelho.
- Não diga isso.
- Digo, digo.
- Um rapaz com a sua inteligência não pode pensar assim.
- Como quer que eu pense?
- Que o Passos está aguentar o país.
- Acho que manter-me pouco inteligente, e não dar esse passo.
- Qual passo?
- O passo de dizer que é o Passos que aguenta o país.
- Credo! Tanto radicalismo? Veja as coisas com clareza.
- Desculpe lá, mas quem precisa de clareza é o Passos.
- Qual Passos?
- Diga-me uma coisa. Quer beber tinto ou branco?
- Branco.
- Acho bem. A conversa do Passos pôs-me a cabeça turva.
(Fui buscar o vinho.)
- Já que teve na África do Sul, a coisa está mal para o Mandela.
- Não gosto nada desse Mandela.
- Gosta do Passos, mas não gosta do Mandela?
- Sim.
- Não acredito.
- Acredite.
- Acho que preciso de algo mais forte. Há whisky?
- Está ali, a poucos passos.
(Risos.)
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