Começo por dizer que o nosso pensamento não altera a substância das coisas. Passo a explicar com um exemplo, o aço não existe na natureza. É verdade que são precisas capacidades cognitivas - pensamento - para produzir uma liga metálica com a resistência e ductilidade do aço, mas o certo é que, se fomos ver as suas componentes - ferro, carbono ou outros metais -, nenhuma destas é produzida pelo pensamento, ou seja, pertencem ao mundo físico independentemente daquilo que o nosso cérebro é capaz de imaginar ou sintetizar.
No mundo físico, ou até mesmo em ciências como a biologia ou a física, é relativamente fácil de apreender que o pensamento não altera a substância das coisas. O caso muda de figura, no mundo social, na ética, ou na matemática. Como já li, o raciocínio matemático não apela para o mundo físico, baseia-se em axiomas. Apesar de tudo, podemos sugerir com alguma segurança, que a matemática é objectiva: 2+2=4. Não é impossível descortinar uma assembleia para deliberar qual é o valor da soma de dois mais dois, mas independentemente do que a assembleia decidir, esse resultado será sempre quatro.
Resta-nos o mundo social. Se formos a ver, o que é "contrato social", uma definição possível seria: "o conjunto de regras a que as pessoas concordarão em obedecer, para benefício mútuo, na condição de as outras pessoas também lhes obedecerem."
Quando comparamos uma liga metálica e um contrato social, podemos dizer que ambos têm componentes. O aço possui ferro ou carbono, o contrato social possui regras. Porém, as regras são de uma natureza ou substância muito diferente das do ferro ou carbono. As regras podem ser dispares, controversas ou, até, contraditórias. Se fizéssemos um inquérito internacional, e perguntássemos a pessoas diferentes partes do mundo, ou até pessoas que vivem numa mesma região, mas com caractetísticas diferentes, como género, idade ou condição económica. E a cada uma destas, pedíssemos um conjunto de 7 regras ou normas de conduta social, é muito plausível que encontraíramos contratos sociais muito diferentes um dos outros.
Os castelos perfeitos
No mundo social, há a política. Por sua vez nesta, há diversas visões ou paradigmas políticos. Uns mais consistentes e duradouros que outros. O comunismo é uma ideologia que existe há décadas, o mesmo podemos dizer do liberalismo, da social-democracia, da democracia-cristã, etc. Estas visões políticas partem de abstracções que resultam em normas ou regras com um fim de produzir um resultado social - um mundo sem desigualdades sociais, por exemplo. Para além disto, há um debate muito vivaz entre aqueles que são afectos a diferentes ideologias. Este debate, também resulta em competição e confronto.
Voltemos à proposição inicial: o pensamento não altera a substância das coisas. Será esta proposição verdadeira? Expliquemos porque a questão é importante. Como já foi dito, as visões políticas podem nascer da observação do mundo social, da economia ou da vida comunitária. Este mundo é factual, por exemplo, existem empresas e juntas de freguesia, existiu a escravatura institucionalizada, a violência continua a ser uma realidade. Na verdade, se formos a ver bem, existem milhares de coisas num mundo social, chamemos estes de agentes. E, ao mesmo tempo, existem entre estes agentes milhares de interacções de tipos diferentes. Os agentes podem ser indivíduos, e podemos dizer que cada um destes é uma singularidade, com diferentes características, personalidades ou preferências. Os agentes podem ser colectivos, uma junta de freguesia, um ministério, uma empresa, uma associação, um país, etc. Por sua vez, é quase indiscutível que as possibilidades de interacções entre estes agentes é quase ilimitada.
A substância das coisas é complexa
Apercebendo-nos da diversidade de agentes e do colosso de intercações possíveis, é difícil discordar que o mundo social é complexo. Nós podemos afirmar que o mundo social é de tal ordem complexo que nada pode ser feito para fazer recuar consequências nocivas dos seus agentes e interacções. Ou seja, nada pode ser feito para alterar a substância intricada do mundo social. A razão é simples, ao contrário do aço, onde temos uma liga metálica unida por laços sólidos que podem ser manipulados pelo calor, é impossível ter o controlo perfeito do mundo social. Apesar desta constatação, é possível ir agora buscar o conceito de "contrato social" e dizer, que apesar de o mundo ser caótico, se incluímos algumas regras a sua complexidade pode adquirir um caracter mais benéfico e produtivo. Como já foi dito, há aqui o problema de "que regras"? Os agentes observam o mundo de forma limitada, ou seja, nenhuma pessoa consegue observar todo este mundo complexo, assim, qualquer pessoa que advogue regras para um contrato social, parte sempre de um fragmento muito pequeno daquilo que é o mundo, e de uma perspectiva sempre muito subjectiva, logo as regras serão sempre limitadas, fragmentadas e imperfeitas.
E mesmo que estas pessoas se organizem, e diferentes perspectivas se confrontem em debate ou em competição eleitoral, dando origem a "contratos sociais" mais consistentes e fiáveis, há outro problema patente: o mundo está em permanente mutação. O que leva a concluir que estas visões possam ter lacunas tendo em conta uma observação imperfeita e podem tornar-se desgastadas e desadequadas, porque estão sempre a emergir novos problemas com consequências nocivas.
Castelos Imaginários
É fácil demonstrar, do que foi dito, que construções ou abstracções políticas são sempre falíveis ou terrivelmente imperfeitas. Quanto maior for o universo do mundo social que estas visões devem incidir, mais desadequadas estas podem ficar. Fica a ideia que são como castelos. Um castelo têm muros, é uma protecção contra agressões da natureza ou ataques nefastos. Quanto mais coisas queremos proteger neste castelo, mais forte e maior este terá que ser. Porém, se adjectivamos um objecto como imaginário este deixa de existir? Não, de facto, existem castelos e comparar as visões políticas ou ideologias a castelos imaginários perfeitos é uma mera metáfora que sugere que um castelo perfeito só pode existir na imaginação, o mesmo já não se pode dizer de outro tipo de construções, que embora imperfeitas, existem e parecem funcionar.
Fins contigentes e meios contigentes
Eu comecei o texto com uma máxima discutível: o pensamento não altera a substância das coisas. Mergulhei no mundo social e alertei para a complexidade flagrante deste. Falta, concluir porque afirmo que esta máxima é discutível. Nós, afinal, podemos alterar a substância das coisas, desde que esta seja contigente. Nós podemos considerar a honestidade ou a solidariedade como conceitos abstractos difíceis de serem conduzidos a todos os seres sencientes do planeta terra, mas nós podemos ter um comportamento honesto e solidário. E podemos nas nossas comunidades incutir a honestidade ou a solidariedade. O mundo da nossa comunidade é complexo, mas está próximo. Podemos influenciar outros seres conscientes que estão próximos de nós, e podemos influenciar as interacções entre estes agentes. O problema das ideologias não reside só na questão se são boas ou más, ou se são válidas ou não. Nós como seres limitados podemos, simplesmente, sermos incapazes de implementar castelos artificiais e imaginários. Somos seres contigentes: no tempo, no perímetro de acção, na disponibilidade ou nas ferramentas que detemos. Tendo meios contigentes, pode ser mais útil dedicarmos-nos a fins contigentes, que estão ao nosso alcance e no nosso perímetro de acção. Por vezes, penso que esta constatação não é uma evidência por razões de ego ou de ambição. D. Quixote queria combater os gigantes moinhos de vento para que o seu nome soasse na posteridade. Os problemas de um mundo complexo e intricado podem não ser moinhos de vento, mas a permanência inútil na persecução destes fins só pode ser explicada pela mesma razão que Cervantes colocou o seu herói a investir sobre uma fantasia.
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