Um evento singular
Não sei precisar se foi um domingo, sábado, ou feriado, a primeira vez que o Barata despertou com pensamentos ousados foi um mero dia de lazer, e é só isto que posso transmitir quanto ao momento que deflagrou toda esta narrativa. Quieto, mudo, ensimesmado e nu, o nosso herói fixou o olhar no reflexo da sua face, num dos espelhos do quarto, e fez um desafio intrigante ao seu próprio ser, ou melhor, à sua própria alma. Uma única e singela pergunta que pôs tudo em perspectiva:
- Quem és tu?
Como devem calcular a alma não respondeu, nem sequer dignou-se a manifestar-se de forma alguma. Quanto a isto, Barata concluiu que não existe tal coisa chamada "alma". Se Descartes disse, "eu penso, logo existo", como a alma não diz nada, não faz nada e não pensa nada, a alma não pode existir. Barata vestiu-se lentamente disposto a revelar aos seus filhos e mulher uma outra ideia singular. Ele já não era o mesmo homem que no dia anterior, ele era um homem diferente.
Eu não sou o mesmo homem, a nossa existência comum deixou de fazer sentido
Os filhos não estavam em casa, mas o pequeno-almoço estava pronto para ele. Carolina estava à espera que o marido descesse do quarto para fazer-lhe companhia enquanto ele tomava a primeira refeição do dia. Ele entrou naquele espaço comum familiar e permaneceu imóvel em pé olhando para a sua mulher:
- Carolina, tenho algo para te contar. Espero que respeites o que te vou dizer. Tudo o que te direi tem uma lógica irrevogável.
Ela ignorou a solenidade que o Barata atribui ao assunto.
- Tudo bem, mas preparei aqui umas torradas e tens o teu sumo de laranja pronto.
- Antes disso, vou-te dizer algo. Lembras-te do nosso casamento há vinte anos?
- Claro que sim.
- Sabes que os nossos corpos estão em permanente regeneração, aquele homem que casou contigo há vinte anos já não existe, nenhum dos átomos do corpo desse homem permenece no meu corpo. Por isso, creio que a nossa relação já não faz sentido. Pelo menos, na perspectiva da lógica, não faz. Para além disto, eu hoje compreendi que a minha vida só faz sentido se dedicar-me por completo ao bem da humanidade. Quero levar a verdade aos meus semelhantes, quero que estes percebam as verdades fundamentais e essenciais. Todo o meu tempo será dedicado a isto. Vou abandonar o meu emprego e esta família. Espero que compreendas.
Carolina ficou pasma e revoltada. Mas quis levar a coisa com seriedade, acalmou-se para dar uma resposta:
- Sei que a questão da nossa identidade é complexa, mas o nosso casamento não se baseia só no que aconteceu há vinte anos. Desde então, estamos juntos. Nós renovamos o nosso casamento todos os dias. Depois, queres dedicar-te à verdade, aquilo que estou a dizer-te é uma verdade insofismável. E dizes que o teu fim é a humanidade. Eu pergunto: eu, os teus filhos, os teus pais e família, não somos também humanidade? Nós somos todos membros da família humana. Se te vais dedicar à humanidade, como podes esquecer-te da parte da humanidade que está mais próxima de ti?
Barata sentiu dificuldade em responder logicamente a tais questões, porém, conseguiu descortinar uma resposta.
Eu não sou o mesmo homem, a nossa existência comum deixou de fazer sentido
Os filhos não estavam em casa, mas o pequeno-almoço estava pronto para ele. Carolina estava à espera que o marido descesse do quarto para fazer-lhe companhia enquanto ele tomava a primeira refeição do dia. Ele entrou naquele espaço comum familiar e permaneceu imóvel em pé olhando para a sua mulher:
- Carolina, tenho algo para te contar. Espero que respeites o que te vou dizer. Tudo o que te direi tem uma lógica irrevogável.
Ela ignorou a solenidade que o Barata atribui ao assunto.
- Tudo bem, mas preparei aqui umas torradas e tens o teu sumo de laranja pronto.
- Antes disso, vou-te dizer algo. Lembras-te do nosso casamento há vinte anos?
- Claro que sim.
- Sabes que os nossos corpos estão em permanente regeneração, aquele homem que casou contigo há vinte anos já não existe, nenhum dos átomos do corpo desse homem permenece no meu corpo. Por isso, creio que a nossa relação já não faz sentido. Pelo menos, na perspectiva da lógica, não faz. Para além disto, eu hoje compreendi que a minha vida só faz sentido se dedicar-me por completo ao bem da humanidade. Quero levar a verdade aos meus semelhantes, quero que estes percebam as verdades fundamentais e essenciais. Todo o meu tempo será dedicado a isto. Vou abandonar o meu emprego e esta família. Espero que compreendas.
Carolina ficou pasma e revoltada. Mas quis levar a coisa com seriedade, acalmou-se para dar uma resposta:
- Sei que a questão da nossa identidade é complexa, mas o nosso casamento não se baseia só no que aconteceu há vinte anos. Desde então, estamos juntos. Nós renovamos o nosso casamento todos os dias. Depois, queres dedicar-te à verdade, aquilo que estou a dizer-te é uma verdade insofismável. E dizes que o teu fim é a humanidade. Eu pergunto: eu, os teus filhos, os teus pais e família, não somos também humanidade? Nós somos todos membros da família humana. Se te vais dedicar à humanidade, como podes esquecer-te da parte da humanidade que está mais próxima de ti?
Barata sentiu dificuldade em responder logicamente a tais questões, porém, conseguiu descortinar uma resposta.
- O bem da humanidade não pode depender só de um grupo restrito de pessoas. Se assim fosse, em última análise, podíamos sujeitar toda a humanidade só para salvar uma família, um grupo ou um clã. Depois, a minha tarefa é enorme. Se perder tempo com questões menores não serei capaz de realizar a minha tarefa. O fundamento do meu ser será só a verdade e na minha causa, nada mais.
Carolina tinha resposta para isto:
- Estás a entender a verdade como um conceito abstracto e distante. O teu ser começou numa família, depois cresceste e conviveste com aqueles que te rodeiam. Isto é objectivo, tu cresceste comigo e com todos aqueles que estão em teu redor. Independentemente, das ideias que tenhas agora, a tua vida desenvolveu-se a partir dos elos criados com outras pessoas, as que estão mais próximas de ti. Dizes que és uma nova pessoa, um pouco como um rio que chega à foz e afirma que deixou de ser rio para ser mar. Porém, a água do mar evapora-se, e se os rios deixarem de existir, o próprio mar cessa de existir. Não podes ser mar desligando-te dos rios que te criaram. Assim, o bem da humanidade como o mar, não pode ser independente dos seus rios, o fundamento da sua existência só pode subsistir se estiver ligado a uma fonte contínua de água.
A dificuldade de dar resposta a Carolina tornou-se tão emergente que o Barata saiu de casa incapaz de responder ao argumento do rio. A sua odisseia pelo bem da humanidade e pela verdade começou sem que ele fosse capaz de responder à lógica dos argumentos expostos pela sua mulher.
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