segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Proibições

Neto: O sexo é bom.

Pai: O sexo era melhor quando era proibido.

Avô: O sexo era bom quando era proibido e ainda era melhor quando era pecado. 

Ferramentas

Um exercício comum na labuta política é elevar-se perante os outros: nós somos o rumo certo, eu sou democrata, eu defendo na liberdade. Há um conjunto infidável de atributos que podem ser usados neste discurso: rigor, determinação, coragem, sensibilidade, rasgo oratório, etc. Depois, há a dificuldade em compreender como estes atributos traduzem-se em resultados: rigor em quê, determinação sobre que objectivo, coragem em relação a quem ou a quê, o que é sensibilidade social? O rasgo oratório é um problema constante: será que conseguimos descernir se num discurso os significantes possuem significado? 
A objectividade poderia introduzir um ciclo virtuoso no debate político: destacar o que é importante e  ser capaz de mensurar os resultados da acção política, tiravam a limpo o que é útil e necessário e o que é inútil e constitui um fardo. Como será que a argumentação e a lógica podem ser ferramentas da democracia? Que mecanismos podemos utilizar para aperfeiçoar a democracia? 

domingo, 29 de setembro de 2013

O poder da ficção

A Ficção Como Explicação
Há poucas semana o meu tio Carlos veio-me com uma história engraçada sobre a origem da palavra "sacana" no japonês. Segundo o seu relato, a origem é lusa. Os portugueses quando chegaram ao arquipélago nipónico no séc. XVI gostavam de pescar nas suas naus. Os japoneses notaram quando vinha no anzol um peixe pequeno, o descobridor que deu novos mundos ao mundo, dizia "sacana" e devolvia o bicho ao mar. E, assim, ainda hoje os japoneses chamam um peixe pouco avantajado de "sacana".
A história, vim a comprovar não é verídica, julgo até que o contágio semântico foi no sentido inverso, ou seja, a palavra portuguesa "sacana" é que pode ter origem no japonês. Enfim, verídica ou não, este relato é uma tentativa de explicação. Faz lembrar muitos outros relatos, sobre a origem do homem, do mundo ou do universo. Ficções que, mesmo sem terem grande validade, moldaram a nossa história e o percurso da humanidade. 
Estas ficções podem ser uma necessidade intrínseca da nossa espécie. Somos munidos de curiosidade e ambicionamos compreender o nosso sentido da vida. Queremos compreender o que nos rodeia. O método cientifico nem sempre foi uma ferramenta disponível, nem sempre esteve ao nosso dispor. Sobravam as narrativas e as mitologias para encontrar senso na origem das coisas, as causas dos fenómenos. Esta influência da ficção perdura ainda hoje...

A ficção para modelar comportamentos
A ideia que a religião é uma ficção pode ser controversa, a religião emana normas de conduta mas podemos veicular as mesmas à fé e à crença divina. Em todo o caso, é possivel duvidar que todas as normas católicas tiveram inspiração divina, muitos feriados religiosos foram adaptados de feriados pagãos, por exemplo. E a dúvida agudiza-se numa outra perspectiva, vejamos o seguinte exemplo: o que será a mitologia grega para um católico senão uma ficção? Os deuses egípcios não serão meras construções da imaginação na perspectiva de um muçulmano? É indiscutível que estas criações moldaram o comportamento de muitos seres humanos, basta ver a edificação das pirâmides de Gizé. 

Porém, há outras convenções que modelam o nosso comportamento. Reis e imperadores tinham éditos e aplicavam a sua justiça. A discussão sobre o que é ficção continua noutras categorias, um país ou estado são ficções? Eu suponho que sim, o povo português nasceu a partir da vontade de uma minoria que depois foi-se alargando e interligando ao longo de séculos, e esta união baseia-se numa cultura comum. Depois, os povos vão buscar a sua razão de ser e a sua essência a lendas e narrativas. As convenções culturais não enganam, são arbitrárias. A celebração do Natal baseia-se num produto criativo colectivo chamado Pai Natal, uma ficção flagrante mas que move um consumismo desenfreado de milhões e milhões de pessoas. 

Continuando no mundo da ficção, temos o modo como algumas pessoas justificavam a existência da escravatura, ou do colonialismo. Os seres humanos criam ficções para moldar o comportamento dos outros, e ao mesmo tempo, usam-nas para justificar os seus actos. A teoria racial nos nazis aparentava ter um fundo cientifico, e muitos dos carrascos da Segunda Guerra Mundial justificaram as suas atrocidades perante o dever. O que é dever aqui? Dever em função de quê? E o que é uma raça? 

Estes exemplos parecem demonstrar que as ficções podem ser terrivelmente atrozes e terem consequências perversas. Os homens precisam de ficções para regular a sua vida social, a vida em sociedade depende de uma cooperação massiva de pessoas. Nós criamos símbolos como hinos, bandeiras para representar uma pátria. E sobre a égide destas construções imaginativas podes criar um mundo de paz social, ou um mundo totalitário. 

A ficção como depósito de esperança 
A ciência pode ser normativa e ser pouca dada a ficções, todavia se formos a ver a teoria de Galileu sobre o Heliocentrismo verificamos que esta abalou fortemente a convicção que a Igreja Católica é detentora de verdades absolutas, o que abriu caminho a outro tipo de ficções como a elucidada pela Revolução Francesa: Igualdade, Fraternidade e Solidariedade. A noção que o poder absoluto dos monarcas também foi derrubado na criação da primeira república da modernidade plasmada na Declaração de Independência dos EUA. 
As ficções são um elemento muito relevante na transmissão de valores, "A Cabana do Pai Tomás" foi um livro que descreveu o sofrimento dos escravos, deu unidade e massa critica ao movimento abolicionista. A noção de liberdade ou de coragem pode ser preservada, nutrida e transmitida através de narrativas e criações literárias. O compromisso com a ética depende de produtos da imaginação tais como a "máquina de experiências" ou a história do "anel de Giles". Aliás, muito do que conhecemos do mundo dependeu de todo um conjunto de exemplos, casos, narrativas de todo o tipo, que permitem apreendermos a verdade daqueles que nos rodeiam. As nossas memórias são falíveis, o próprio convívio com outras pessoas pode basear-se em crenças imprecisas, sem que isto traga grande mal ao mundo. 

O poder transformador da ficção
Diria o nosso poeta: quando o homem sonha, o mundo pula e avança. Quando falamos da luta pela liberdade, no desafio de construir um mundo melhor, devemos compreender que as nossas crenças podem basear-se em ficções e aqui o conceito de ficção não está associado a uma ilusão ou fantasia. Sonhar com uma democracia para o nosso país, foi uma ficção por longas décadas. Apesar disto, houve uma transição democrática relativamente pacífica o que permite concluir que a ficção da liberdade não pode ter sido considerada uma fantasia, pois, concretizou-se. 
A história oferece-nos um infindável número de exemplos de heroísmo, coragem e integridade. Por vezes, ignorando a sua própria segurança ou bem-estar, houve pessoas que correram riscos por ideais e ideias que começaram por ser um mero conceito abstracto para, finalmente, ganharem forma nas nossas sociedades. O sacrifício pessoal parece surgir do âmago emocional, ao invés, do ímpeto racional de prosperar ou levar uma vida de conformismo. 
O poder da ficção é imenso, conhecendo esta faca de dois gumes sabemos que esta pode levar-nos para as trevas e da escuridão nos libertar, assim a única conclusão que posso transmitir sobre a ficção é que não podemos definitivamente a subestimar. 

sábado, 28 de setembro de 2013

Fins Contigentes e os Castelos Imaginários

Começo por dizer que o nosso pensamento não altera a substância das coisas. Passo a explicar com um exemplo, o aço não existe na natureza. É verdade que são precisas capacidades cognitivas - pensamento - para produzir uma liga metálica com a resistência e ductilidade do aço, mas o certo é que, se fomos ver as suas componentes - ferro, carbono ou outros metais -, nenhuma destas é produzida pelo pensamento, ou seja, pertencem ao mundo físico independentemente daquilo que o nosso cérebro é capaz de imaginar ou sintetizar. 

No mundo físico, ou até mesmo em ciências como a biologia ou a física, é relativamente fácil de apreender que o pensamento não altera a substância das coisas. O caso muda de figura, no mundo social, na ética, ou na matemática. Como já li, o raciocínio matemático não apela para o mundo físico, baseia-se em axiomas. Apesar de tudo, podemos sugerir com alguma segurança, que a matemática é objectiva: 2+2=4. Não é impossível descortinar uma assembleia para deliberar qual é o valor da soma de dois mais dois, mas independentemente do que a assembleia decidir, esse resultado será sempre quatro. 

Resta-nos o mundo social. Se formos a ver, o que é "contrato social", uma definição possível seria: "o conjunto de regras a que as pessoas concordarão em obedecer, para benefício mútuo, na condição de as outras pessoas também lhes obedecerem."

Quando comparamos uma liga metálica e um contrato social, podemos dizer que ambos têm componentes. O aço possui ferro ou carbono, o contrato social possui regras. Porém, as regras são de uma natureza ou substância muito diferente das do ferro ou carbono. As regras podem ser dispares, controversas ou, até, contraditórias. Se fizéssemos um inquérito internacional, e perguntássemos a pessoas diferentes partes do mundo, ou até pessoas que vivem numa mesma região, mas com caractetísticas diferentes, como género, idade ou condição económica. E a cada uma destas, pedíssemos um conjunto de 7 regras ou normas de conduta social, é muito plausível que encontraíramos contratos sociais muito diferentes um dos outros. 

Os castelos perfeitos
No mundo social, há a política. Por sua vez nesta, há diversas visões ou paradigmas políticos. Uns mais consistentes e duradouros que outros. O comunismo é uma ideologia que existe há décadas, o mesmo podemos dizer do liberalismo, da social-democracia, da democracia-cristã, etc. Estas visões políticas partem de abstracções que resultam em normas ou regras com um fim de produzir um resultado social - um mundo sem desigualdades sociais, por exemplo. Para além disto, há um debate muito vivaz entre aqueles que são afectos a diferentes ideologias. Este debate, também resulta em competição e confronto. 

Voltemos à proposição inicial: o pensamento não altera a substância das coisas. Será esta proposição verdadeira? Expliquemos porque a questão é importante. Como já foi dito, as visões políticas podem nascer da observação do mundo social, da economia ou da vida comunitária. Este mundo é factual, por exemplo, existem empresas e juntas de freguesia, existiu a escravatura institucionalizada, a violência continua a ser uma realidade. Na verdade, se formos a ver bem, existem milhares de coisas num mundo social, chamemos estes de agentes. E, ao mesmo tempo, existem entre estes agentes milhares de interacções de tipos diferentes. Os agentes podem ser indivíduos, e podemos dizer que cada um destes é uma singularidade, com diferentes características, personalidades ou preferências. Os agentes podem ser colectivos, uma junta de freguesia, um ministério, uma empresa, uma associação, um país, etc. Por sua vez, é quase indiscutível que as possibilidades de interacções entre estes agentes é quase ilimitada. 

A substância das coisas é complexa
Apercebendo-nos da diversidade de agentes e do colosso de intercações possíveis, é difícil discordar que o mundo social é complexo. Nós podemos afirmar que o mundo social é de tal ordem complexo que nada pode ser feito para fazer recuar consequências nocivas dos seus agentes e interacções. Ou seja, nada pode ser feito para alterar a substância intricada do mundo social. A razão é simples, ao contrário do aço, onde temos uma liga metálica unida por laços sólidos que podem ser manipulados pelo calor, é impossível ter o controlo perfeito do mundo social. Apesar desta constatação, é possível ir agora buscar o conceito de "contrato social" e dizer, que apesar de o mundo ser caótico, se incluímos algumas regras a sua complexidade pode adquirir um caracter mais benéfico e produtivo. Como já foi dito, há aqui o problema de "que regras"? Os agentes observam o mundo de forma limitada, ou seja, nenhuma pessoa consegue observar todo este mundo complexo, assim, qualquer pessoa que advogue regras para um contrato social, parte sempre de um fragmento muito pequeno daquilo que é o mundo, e de uma perspectiva sempre muito subjectiva, logo as regras serão sempre limitadas, fragmentadas e imperfeitas. 

E mesmo que estas pessoas se organizem, e diferentes perspectivas se confrontem em debate ou em competição eleitoral, dando origem a "contratos sociais" mais consistentes e fiáveis, há outro problema patente: o mundo está em permanente mutação. O que leva a concluir que estas visões possam ter lacunas tendo em conta uma observação imperfeita e podem tornar-se desgastadas e desadequadas, porque estão sempre a emergir novos problemas com consequências nocivas. 

Castelos Imaginários
É fácil demonstrar, do que foi dito, que construções ou abstracções políticas são sempre falíveis ou terrivelmente imperfeitas. Quanto maior for o universo do mundo social que estas visões devem incidir, mais desadequadas estas podem ficar. Fica a ideia que são como castelos. Um castelo têm muros, é uma protecção contra agressões da natureza ou ataques nefastos. Quanto mais coisas queremos proteger neste castelo, mais forte e maior este terá que ser. Porém, se adjectivamos um objecto como imaginário este deixa de existir? Não, de facto, existem castelos e comparar as visões políticas ou ideologias a castelos imaginários perfeitos é uma mera metáfora que sugere que um castelo perfeito só pode existir na imaginação, o mesmo já não se pode dizer de outro tipo de construções, que embora imperfeitas, existem e parecem funcionar. 

Fins contigentes e meios contigentes
Eu comecei o texto com uma máxima discutível: o pensamento não altera a substância das coisas. Mergulhei no mundo social e alertei para a complexidade flagrante deste. Falta, concluir porque afirmo que esta máxima é discutível. Nós, afinal, podemos alterar a substância das coisas, desde que esta seja contigente. Nós podemos considerar a honestidade ou a solidariedade como conceitos abstractos difíceis de serem conduzidos a todos os seres sencientes do planeta terra, mas nós podemos ter um comportamento honesto e solidário. E podemos nas nossas comunidades incutir a honestidade ou a solidariedade. O mundo da nossa comunidade é complexo, mas está próximo. Podemos influenciar outros seres conscientes que estão próximos de nós, e podemos influenciar as interacções entre estes agentes. O problema das ideologias não reside só na questão se são boas ou más, ou se são válidas ou não. Nós como seres limitados podemos, simplesmente, sermos incapazes de implementar castelos artificiais e imaginários. Somos seres contigentes: no tempo, no perímetro de acção, na disponibilidade ou nas ferramentas que detemos. Tendo meios contigentes, pode ser mais útil dedicarmos-nos a fins contigentes, que estão ao nosso alcance e no nosso perímetro de acção. Por vezes, penso que esta constatação não é uma evidência por razões de ego ou de ambição. D. Quixote queria combater os gigantes moinhos de vento para que o seu nome soasse na posteridade. Os problemas de um mundo complexo e intricado podem não ser moinhos de vento, mas a permanência inútil na persecução destes fins só pode ser explicada pela mesma razão que Cervantes colocou o seu herói a investir sobre uma fantasia. 



sexta-feira, 27 de setembro de 2013

O Grimaldi

- Doutor, estou deprimido. Preciso de ajuda.
- Sim, o seu caso é grave mas tem uma solução, vá ver o palhaço Grimaldi.
- Doutor, há um problema.
- Qual?
- Eu sou o Grimaldi.

Do Ricardo Araújo Pereira, Visão.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

sábado, 21 de setembro de 2013

Isso não é prioritário.

Podemos sempre anular argumentos por diversas ordens de razão. Por exemplo, podemos dizer se A é prioritário, B não é importante. 


B não deixa de ser importante por A ser prioritário. 

Vejamos um exemplo:
Beber água regularmente é prioritário em relação ao sexo. Logo, o sexo não é importante. 

Duvido que alguém deixe de pensar que o sexo é importante, mesmo que existam milhares de outras necessidades prioritárias.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Liberdade de Dispersão (1)

Os homens acotovelavam-se em conversas dispersas. O vinho desperta espíritos latentes. Não podemos libertar os nossos fantasmas, se nós próprios somos o seu inexpugnável cárcere. Somos reféns dos nossos prisioneiros. Isto sobressaia em cada detalhe dos diálogo travado naquela mesa redonda. 

Eram quatro homens, o espectro etário ia das vinte e sete primaveras até os vinte e um invernos, em cada perna. Estas duas pernas eram de Rogério, o ancião do grupo. Os outros três, eram: Agostinho (27), Viriato (31) e Salomão (38). Ao todo, cento e trinta e oito anos de experiência acumulada. A sabedoria de um colectivo centenário, porém, não é a mesma de um velho que sobreviveu aos tempos insondáveis.

V: Dizes tu, se estamos a intuir que mentes, é porque te consideramos um mentiroso? 
A: Claro que sim!
R: Imagina o seguinte, Agostinho. Consegues imaginar um gato verde?
A: Consigo, mas já sei que vai sair mais um disparate filosófico. 
V: Não consegues compreender o que é um exemplo?
A: Sei o que é um exemplo, mas não sei o que é um gato verde. Não existem gatos verdes. 
R: Exactamente, não existem! Todos temos a certeza que não existem gatos verdes, ou azuis, ou púrpura. Certo?
A: Claro que sim. Certíssimo. 
R: Agora imagina que, por alguma ordem de razão, chegavas cá e dizias que viste um gato azul. 
A: Absurdo! Jamais!
R: Não consegues ver-te com a bezana? 
A: Consigo. 
R: E a embriaguez não poderia afectar o teu discernimento?
A: Não tanto. 
R: Vamos lá ver outro ponto: há algum impedimento cognitivo ou anatómico que te impeça definitivamente de sugerir que viste um gato verde? 
A: Julgo que não, mas isto não tem lógica. 
R: O gato verde é um exemplo para chegarmos a uma conclusão lógica. 
A: Não gosto desse exemplo, é totalmente inverosímil, irrealista. 
V: Eu julgo que posso ajudar. Agostinho, diz-nos alguma proposição que imperativamente ninguém reconhecesse como verdadeira. Uma, seja ela qual for. "Eu vi um unicórnio", é um exemplo. 
A: Já sei. 
V: Diz. 
A: Se eu disser que o Andorinha ganhou o campeonato da Primeira Divisão em 2002, duvido que alguém leve isto, minimamente, a sério. 
R: Perfeito! Portanto, seria uma mentira, mas ninguém do mundo do futebol reconheceria essa afirmação como verdadeira. 
A: Sim. 
R: Logo, apesar de ser uma mentira, não seria um logro?
A: Sim, acho que não enganaria ninguém. 
R: Pará além disto, precisamos de ter em conta o contexto. Imagina que eu diria: o Capitão Nemo, abandonou o seu Náutilus, para festejar a vitória do Andorinha no Campeonato Nacional de Futebol.
A: Sim, mas qual é a diferença? 
R: O Capitão Nemo não existe, é uma personagem de uma narrativa de ficção. Porém, há uma verosimilhança. Ninguém, com alguma sanidade, acreditaria que o Capitão Nemo é uma mentira. Ninguém acredita que Capitão Nemo exista, da mesma forma que ninguém acreditaria que o Andorinha ganhou um Campeonato de Futebol.
A: Claro que sim, mas para quê tanta conversa? 
R: A questão é importante porque mesmo que soubéssemos que mentiste, pode não ser condição suficiente, ou adequado, considerar que és um mentiroso. 
A: Não consigo porque não foi dito isso logo...
R: Assim ficaste a perceber que a consequência de chamar-te mentiroso pode não ser justa, se os antecedentes não serem adequados. E tens elementos que comprovem isto. 
A: Muito bem. Posso dizer que percebi. 

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Mounier

"Iniludível vocação."

A minha memória?

Comecei, recentemente, a notar que a minha memória detém uma influência significativa no meu quotidiano. Eu tenho uma memória explosiva, ou seja, uma mera observação ou pensamento, faz disparar um conjunto de associações ou conexões que, até certo ponto, não são controladas por mim. Estas associações nem sempre são dotadas de precisão, aliás, quanto a factos, não tenho uma memória brilhante.

Gostava de compreender este e outros mecanismos da memória. Sei que o hipocampo está relacionado com a memória. Lembro-me do Steiner afirmar que a memória precisa de ser saciada, da mesma forma que a curiosidade. O conhecimento é desejável, logo a busca do conhecimento pode ser tão importante como a sua perservação. Até que ponto a memória pode condicionar a felicidade? Ou a tomada de decisões que nos conduzem para uma vida mais completa? Como a memória influencia as nossas relações?

Um bom caso para pesquisar e reflectir...

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Ted Talks: porque estão as abelhas a desaparecer?

Oradora: Marla Spivak

Síntese:

Causas do desaparecimento das abelhas:
- Agricultura intensiva baseada em monoculturas.
- Pesticidas.
- Parasitas e Enfermidades.
- Retrocesso de ambientes naturais, recheados por flores.

Link: Marla Spivak: Why bees are disappearing



domingo, 15 de setembro de 2013

Idomatic English (1)

"Built like a Mack Truck" - USA

Algo que foi construído de forma sólida e segura, que providenciará um bom serviço, será útil ou frutuoso por muitos e longos anos.

Citação

"I feel a little inside out."

A "peacemaker"

Sim, esta arma tem nome.
É a peacemaker. 






Distorção Subjectiva

Quando me falta a verdade, falta-me tudo.

Reconheço que o meu sistema nem sempre digere bem a verdade. No entanto, ainda não encontrei ninguém que fosse diferente. 

Sei que a bondade é necessária, mas nunca ambicionarei ser bondoso. Nem desejo isso para nenhum ser humano decente. 

Sobra a questão, como poderemos transmitir uma verdade objectiva se somos todos emissores e receptores subjectivos? 


Logica infecunda (2)

Os cães são animais que evoluíram a partir dos lobos.

Tal como os lobos, os cães são mamíferos.

Todos os cães são mamíferos.
O meu Redex-12 é um cão.
O Redex-12 é um mamífero.

Redex-12



As pupilas do coração

As células do coração podem ser um pouco como as pupilas gustativas. Há pupilas que gostam do salgado, outras do amargo e sabor ácido, há umas que vibram com umami, e mais outras que torcem-se pelo doce. E, tal como as pupilas gustativas, as células do coração preferem ser estimuladas todas ao mesmo tempo.

Desvio (1)

A linha dura usa sapatos vermelhos.

(Mas o melhor, é quando os tira.)



A lógica formal é infecunda (1)

Quando me dizem:

Todos os filósofos são humanos.
Sócrates é um filósofo.
(Logo) Sócrates é humano.

Posso concluir que este argumento formal não acrescenta verdade ao mundo. A lógica formal parte de verdades alargadas para chegar a verdades particulares. Não deixa de ser útil por isto, aliás há processos de inovação - muito úteis - que partem do mesmo principio. Porém, resta a dúvida se o pensamento lógico pode ser sempre útil. 

Vejamos o seguinte caso:

Se atirarmos uma moeda ao ar, quando esta cai no chão, a face superior tanto pode ser cara como coroa.
Para vencer a moeda ao ar, é preciso apostar na face visível quando a moeda cai no chão.
O Luís apostou na cara.
O Luís pode ser vencedor.

O argumento é formal e tem validade material. Todavia, se moeda estiver viciada, e a probabilidade de sair coroa é de 98%, e da cara é de 2%. O argumento continua a ter validade formal e validade material, mas não fornece uma explicação para o facto do Luís ter perdido uma fortuna em apostar na face errada.

Em política pode acontecer algo similar. Vejamos a seguinte promessa eleitoral:

Político BP:
Eu prometo criar emprego.

Agora vejamos se é válido este raciocínio:

No fim do mandato a taxa de desemprego mantém-se similar à inicial. Porém, o político BP quis construir um obelisco no centro da cidade, contratando assim trabalhadores e engenheiros para realizar a obra.

Argumento:
Construir um obelisco requer criar emprego.
Foi BP que solicitou a construção do obelisco.
Logo, BP criou emprego.

O argumento é claramente desadequado, todavia, tem validade formal e validade material - é verdadeiro. Em política, há esta tendência que desvirtua o debate e a discussão dos temas. A lógica formal aqui continua a ser infecunda, pior funciona como um logro.

Como resolver este tipo de problemas?




sábado, 14 de setembro de 2013

A Senhora Simpática [Diálogo Verídico]


A senhora simpática que gosta do Passos:

Diz ela:

- Já que gosta de política, vou dizer uma coisa que não vai acreditar...

- Impossível, nesta terra acredito em tudo. 

- Eu gosto do Passos!

- Qual Passos?

- Ora essa, o Passos.

- O John dos Passos?

- Não é esse, o outro. 

- Qual outro? Não estou a ver.

- Claro que está a ver.

- Não. Não estou. Qual Passos?

- O primeiro.

- Qual primeiro? O seu primeiro marido?

(Risos)

- A sério. Não estou a ver.

- Aí! O coiso!

- Eh pah! Não estou mesmo a ver. Qual Passos?

(E estava a ser sincero.)

- O Passos. O Coelho Passos. 

- Ah! O Passos Coelho! Pois, é verdade. Não acredito.

- Não disse?

- Disse, mas eu não acredito.

- Não acredita. Foi como eu disse.

- Mas quem gosta do Passos Coelho neste país?

- Eu. Eu gosto.

- Não acredito. 

- Gosto. Gosto muito dele. Ele é que aguenta o país.

- O país é que não aguenta com ele. 

- Este país é mesmo assim.

- Pois, por causo dos Passos. 

- Quais passos?

- Os passos do Passos. 

- Acredite em mim, ele faz muito por este país.

- Olhe que não. 

(Já parecia o Cunhal com esta.)

- Olhe que sim. Ele aguenta o país.

- Mas o país afunda por causa dos passos de gajos como o Passos.

- Quais Passos?

- Os passos de gajos como o Passos Coelho. 

- Não diga isso.

- Digo, digo.

- Um rapaz com a sua inteligência não pode pensar assim. 

- Como quer que eu pense?

- Que o Passos está aguentar o país. 

- Acho que manter-me pouco inteligente, e não dar esse passo. 

- Qual passo?

- O passo de dizer que é o Passos que aguenta o país.

- Credo! Tanto radicalismo? Veja as coisas com clareza.

- Desculpe lá, mas quem precisa de clareza é o Passos. 

- Qual Passos?

- Diga-me uma coisa. Quer beber tinto ou branco?

- Branco. 

- Acho bem. A conversa do Passos pôs-me a cabeça turva. 

(Fui buscar o vinho.)

- Já que teve na África do Sul, a coisa está mal para o Mandela.

- Não gosto nada desse Mandela.

- Gosta do Passos, mas não gosta do Mandela?

- Sim.

- Não acredito.

- Acredite. 

- Acho que preciso de algo mais forte. Há whisky?

- Está ali, a poucos passos. 

(Risos.)

Uma Falácia Humorística

Eu uso o meu perfil numa rede social para diversos fins, um deles, trata-se de criar contextos experimentais para compreender melhor a essência da argumentação. 

Esta foi uma das experiências:

A minha questão era saber se esta proposição é um argumento falacioso:





Proposição:
"A evolução demorou milhões de anos a criar uma galinha. Eu não digo que a evolução seja uma mentira, mas depois de olhar para uma galinha, quem pode levar a evolução a sério?"



Eu não considero este argumento como sendo falacioso. Imagino, por exemplo, um cenário - não tão futurista - em que um cientista queira promover uma técnica de manipulação genética radical onde se poderia dar origem a uma espécie humana com pele azul e cabelos verdes. Este cientista poderia, eventualmente, iniciar o seu discurso com o mesmo tipo de argumento que foi usado com a galinha, sugerindo assim que o processo de selecção natural é pouco eficaz, logo deve ser substituído por um processo artificial eficiente e rápido a produzir grandiosos resultados. 

Apesar desta consideração, não creio que usar estas proposições, por si só, resultem numa falácia. Pois, não há um contexto que induza uma audiência em erro. 

Porém, houve alguém que comentou o post com a galinha. 

SR: É uma corrida de longo prazo. A galinha adaptou-se e sobreviveu onde outros "mais fortes" sucumbiram. A beleza da evolução é isto: não é ditada pelo momento mas sim pelo tempo.

Observando este comentário, dei uma réplica que, a meu ver, já é falaciosa. 

Resposta: SR, para mim, uma galinha passa o tempo todo da sua vida a preparar-se para um momento: o meu jantar.

Eu considero esta resposta como uma falácia devido a quatro razões:

1) A resposta afasta-se do tema do meu interlocutor. Ele está a referir-se à evolução e eu aludo um jantar. Ou seja, estou a criar um artificio para quem está de fora menosprezar o tema principal - a evolução por selecção natural.

2) Eu não uso o termo "tempo" do mesmo modo que o meu interlocutor. Ele está a falar de milhões ou milhares de anos, e eu estou a alardear o tempo de vida de uma galinha. 

3) O humor aqui acrescenta o efeito diversão que resulta na ampliação do artificio para o público desviar-se do tema principal. 

4) Por fim, há uma tentativa de afectar a credibilidade de quem profere o argumento sério.   

Este post experimental demonstra que é possível através da ligeireza levar uma plateia a preterir um tema relevante, só para poder desfrutar de um momento de humor.


Um Percurso

O saber é uma caminhada, é um percurso com paragens e avanços. As primeiras servem para reflectimos nos avanços que demos. Nos livros, em conferências ou no convívio, somos aprendizes e vamos desaprendendo sempre que é possível. Já tive que desaprender imensas crenças - na esfera pessoal é quase uma constante. O conhecimento obtém-se das verdades que resistem às privações, e daquele tipo de dúvidas que é capaz de desgastar a inverdade, dando assim forma ao edifício do pensamento. Este edifício é uma metáfora incompleta, quando retiramos uma inverdade, não ocorre um colapso, muito pelo contrário, o edifício ergue-se na exclusão do incorrecto, fica mais forte com a retirada de tijolos que não contenham a verdade. 

Somos, em última análise, arquitectos e engenheiros do nosso saber. Sendo improvável sermos arquitectos perfeitos, e não existindo método de sermos engenheiros infalíveis, o nosso saber é sempre imperfeito ou incompleto. Sobra, sermos resilientes, perspicazes e termos forças para manter o processo de edificação. O segredo não está na competências técnicas do arquitecto ou engenheiro. À medida que o tempo passa, fico cada vez mais esclarecido que a busca frutuosa do saber, reside mais no prazer de chegar à verdade e no gosto de ter coragem para enfrentar a obscuridade, do que qualquer outra característica pessoal. Este blogue será feito de paragens e avanços, sem esquecer que. para cada avanço firme há sempre retrocessos. Ficará aqui o registo do percurso.