sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Liberdade de Dispersão (1)

Os homens acotovelavam-se em conversas dispersas. O vinho desperta espíritos latentes. Não podemos libertar os nossos fantasmas, se nós próprios somos o seu inexpugnável cárcere. Somos reféns dos nossos prisioneiros. Isto sobressaia em cada detalhe dos diálogo travado naquela mesa redonda. 

Eram quatro homens, o espectro etário ia das vinte e sete primaveras até os vinte e um invernos, em cada perna. Estas duas pernas eram de Rogério, o ancião do grupo. Os outros três, eram: Agostinho (27), Viriato (31) e Salomão (38). Ao todo, cento e trinta e oito anos de experiência acumulada. A sabedoria de um colectivo centenário, porém, não é a mesma de um velho que sobreviveu aos tempos insondáveis.

V: Dizes tu, se estamos a intuir que mentes, é porque te consideramos um mentiroso? 
A: Claro que sim!
R: Imagina o seguinte, Agostinho. Consegues imaginar um gato verde?
A: Consigo, mas já sei que vai sair mais um disparate filosófico. 
V: Não consegues compreender o que é um exemplo?
A: Sei o que é um exemplo, mas não sei o que é um gato verde. Não existem gatos verdes. 
R: Exactamente, não existem! Todos temos a certeza que não existem gatos verdes, ou azuis, ou púrpura. Certo?
A: Claro que sim. Certíssimo. 
R: Agora imagina que, por alguma ordem de razão, chegavas cá e dizias que viste um gato azul. 
A: Absurdo! Jamais!
R: Não consegues ver-te com a bezana? 
A: Consigo. 
R: E a embriaguez não poderia afectar o teu discernimento?
A: Não tanto. 
R: Vamos lá ver outro ponto: há algum impedimento cognitivo ou anatómico que te impeça definitivamente de sugerir que viste um gato verde? 
A: Julgo que não, mas isto não tem lógica. 
R: O gato verde é um exemplo para chegarmos a uma conclusão lógica. 
A: Não gosto desse exemplo, é totalmente inverosímil, irrealista. 
V: Eu julgo que posso ajudar. Agostinho, diz-nos alguma proposição que imperativamente ninguém reconhecesse como verdadeira. Uma, seja ela qual for. "Eu vi um unicórnio", é um exemplo. 
A: Já sei. 
V: Diz. 
A: Se eu disser que o Andorinha ganhou o campeonato da Primeira Divisão em 2002, duvido que alguém leve isto, minimamente, a sério. 
R: Perfeito! Portanto, seria uma mentira, mas ninguém do mundo do futebol reconheceria essa afirmação como verdadeira. 
A: Sim. 
R: Logo, apesar de ser uma mentira, não seria um logro?
A: Sim, acho que não enganaria ninguém. 
R: Pará além disto, precisamos de ter em conta o contexto. Imagina que eu diria: o Capitão Nemo, abandonou o seu Náutilus, para festejar a vitória do Andorinha no Campeonato Nacional de Futebol.
A: Sim, mas qual é a diferença? 
R: O Capitão Nemo não existe, é uma personagem de uma narrativa de ficção. Porém, há uma verosimilhança. Ninguém, com alguma sanidade, acreditaria que o Capitão Nemo é uma mentira. Ninguém acredita que Capitão Nemo exista, da mesma forma que ninguém acreditaria que o Andorinha ganhou um Campeonato de Futebol.
A: Claro que sim, mas para quê tanta conversa? 
R: A questão é importante porque mesmo que soubéssemos que mentiste, pode não ser condição suficiente, ou adequado, considerar que és um mentiroso. 
A: Não consigo porque não foi dito isso logo...
R: Assim ficaste a perceber que a consequência de chamar-te mentiroso pode não ser justa, se os antecedentes não serem adequados. E tens elementos que comprovem isto. 
A: Muito bem. Posso dizer que percebi. 

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