Começo por repetir uma máxima que há muito advogo: o conceito que conhecemos como autonomia, não pode, de forma alguma, obliterar algo muito mais fundamental e crucial: a autonomia individual dos madeirenses. A autonomia regional é um termo de natureza política-administrativa, infelizmente, tomada de assalto por uma linha partidária. O problema desta apadrinhamento partidário é que esvaziou elementos muito relevantes da nossa comunidade insular.
O que nos leva a termos uma autonomia? Será que a nossa autonomia fundamenta-se apenas no facto de sermos um território ilhéu? No que me é possível concluir, a autonomia advém mais de idiossincrasias culturais e sociais, do que uma mera ultra-periferia. Somos todos portugueses, mas há uma miríade de elementos que nos diferenciam do resto do país. Vejamos o nosso rico vocabulário, a nossa relação com o mar, a gastronomia, os arraiais, a arquitectura ou a "diversidade concentrada" provocada pela sinuosa orografia das nossas ilhas. Tudo isto combinado tem como resultado uma singularidade cultural e social, que foi subordinada ao folclore partidário.
Se queremos fazer valer a nossa autonomia temos, primeiro, de nos libertar da relação parasitária que a política criou com a sociedade madeirense. Temos de nos valorizar como indivíduos que pertencem a uma autonomia, sem que isto remeta para estranhas conotações partidárias, ou infindáveis quezílias entre instituições - as que governam a região e as que governam o país. A autonomia deve privilegiar a diversidade e a democracia, não deve ser uma arma de arremesso entre os "verdadeiros autonomistas" e os "traidores da autonomia".
A autonomia deve materializar-se naquilo que verdadeiramente é: uma singularidade social e cultural que quer e pode enriquecer a cultura portuguesa. Devemos dar uma nova substância à nossa autonomia, recriando a sua vitalidade. Nós somos capazes de projectar a nossa autonomia de tantas e variadas formas, deste modo, ficarmos presos a um mero estatuto administrativo acaba por ser perigoso e constrangedor. Defendo, assim, uma renovada autonomia focada naquilo que temos de melhor: a nossa cultura, as nossas tradições e a nossa paixão pela liberdade.
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