Nós pensamos na corrupção, na inépcia e na incompetência política. Nós observamos uma casta que usurpa e decide com amor ao bolso. Nós concluímos que o bem-comum é uma falácia eleitoral. Nas andanças políticas, vejo um mal maior e mais nocivo: o ego. O mundo não roda em volta do dinheiro, o dinheiro é um meio para os fins da vaidade, do orgulho e da mitomania. A grandeza corrompe a alma um pouco como o ácido dissolve o bronze da moeda, lentamente o metal vai dando lugar ao volátil.
Eu não quero fazer uma apologia do poder. O poder cansa se não exercer fascínio. Alexandre, o Grande, admirava Diógenes de Sinope porque perguntou ao critico das luxurias da civilização o que podia fazer por ele. Diógenes respondeu mais ou menos assim: afasta-te que a tua sombra está a privar-me do sol. O macedónio ficou impressionado com esta desafectação ao poder, eu reitero o mesmo respeito e louvor. Repito as palavras do mentor do termo cínico: não me tires o que não me podes dar. Diógenes de Sinope, revela uma ética individual e um desprezo por convenções que eu facilmente tomo como minhas virtudes - com a ressalva que aquilo que ambiciono ser é muito diferente daquilo que realmente sou.
Apesar do pudor que devemos ter em relação ao poder, será que devemos considerar que este tem utilidade? No meio intempestivo da política, e sabendo que esta tem uma gravidade infinita para atrair arrivistas e figuras suspeitas, não será o poder um mecanismo de controlo deveras proveitoso? Ou seja, num mundo ideal, o poder é abjecto. Mas como o mundo não é perfeito, e as imperfeições são sempre redundantes e, de forma absurda, mais que abundantes, não será o poder uma virtude a ter em conta? Não será um bem raro que devemos privilegiar como necessário?
No contexto actual, vejo no cenário político que me está mais próximo, este dilema de forma flagrante. Vemos o fim de um poder, mas vivenciamos uma luta fratricida pela sua perservação ou substituição, e neste hiato, em que um rei vai ao fosso e ainda não temos outro a ocupar o trono, sentimos a tenebrosa realidade de selvajaria e decadência. O aroma é de um cruel vazio que infesta todos os cantos da vida pública. Fica a ideia que queremos uma ordem renovada, mais do que tudo o resto. Como se, para termos um mundo novo, tivéssemos de recolher os cacos para restabelecer a pirâmide conceptual que estrutura a nossa sociedade. Kafka, escreveu sobre isto, sei que é assustador, as nossas ideias sobre liberdade e democracia podem assentar numa ilusão, ou melhor, pode ser uma fantasia que as nossas liberdades e direitos não assentam na força bruta.
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